Crítica

Dez anos após o lançamento de seu último longa como diretor, Apocalypto (2006), Mel Gibson retorna à função, trabalhando novamente com uma temática histórica em Até o Último Homem. A trama baseia-se na vida de Desmond T. Doss (interpretado com visível comprometimento por Andrew Garfield), médico do exército norte-americano durante a Segunda Guerra Mundial que se tornou o primeiro objetor de consciência a receber a Medalha de Honra do Congresso. Mesmo se recusando a pegar em armas, Doss, membro da Igreja Adventista do Sétimo Dia, foi responsável por salvar mais de 75 soldados na Batalha de Okinawa, em 1945, um feito que o transformou em herói nacional e cuja magnitude ganha o total interesse de Gibson.

Oferecendo uma amostra dos horrores do combate em seus primeiros planos, Gibson opta por voltar no tempo até à infância de Doss, no estado da Virgínia, aparentando estar interessado em investigar as raízes de suas crenças. Assim, acompanhamos seu cotidiano ao lado do irmão (Nathaniel Buzolic), do pai abusivo (Hugo Weaving) – veterano traumatizado pela Primeira Guerra – e da mãe religiosa (Rachel Griffiths), bem como seu relacionamento com a bela enfermeira Dorothy (Teresa Palmer). Nesse primeiro ato, Gibson adota um tom saudosista, quase classicista, especialmente no desenvolvimento do romance do casal – a paixão à primeira vista, o encontro no cinema, a proposta de casamento repentina – que exala um ar de inocência estendido a outras situações, como Doss resolvendo virar médico após socorrer um homem na rua.

Esse tom pueril começa a se dissolver a partir do alistamento do protagonista e do início do treinamento, quando seu comportamento pacifista é tomado pelos outros soldados como covardia. Todo esse segmento central segue os principais arquétipos do ambiente militar, com as superações físicas, as demonstrações de companheirismo, a figura do sargento linha dura dono de um extenso vocabulário de ofensas – que ganham contornos cômicos pela presença de Vince Vaughn no papel – etc. Essa combinação de elementos serve para construir a jornada de provação de Doss que, coagido de todas as formas a abandonar o exército devido aos seus ideais, enfrenta suas primeiras batalhas, no quartel e depois no tribunal, quando levado à Corte Marcial por seus superiores. Mesmo com as ferramentas necessárias para tal, Gibson não chega a se aprofundar completamente em questões como a liberdade de pensamento, oferecendo menos espaço do que poderia para a reflexão.

Um dos motivos para essa carência reflexiva é a ausência de sutileza no modo como os simbolismos são apresentados, do sangue derramado pelo pai no túmulo dos amigos ao olhar fixo de Doss, ainda garoto, nos ícones religiosos após ferir gravemente seu irmão. Porém, se não contribui para uma construção mais consistente dos conflitos ideológicos, essa abordagem direta serve à principal qualidade de Gibson como diretor: a orquestração da ação. É quando chega ao front que ele tem a oportunidade de exibir toda a sua habilidade – já provada em Coração Valente (1995) e Apocalypto - para encenar batalhas viscerais, demonstrando um notável senso espacial e um impecável domínio de ritmo. Ao lado do diretor de fotografia Simon Duggan e do montador John Gilbert, o cineasta impõe desde o primeiro vislumbre da colina de Hacksaw Ridge a grandiosidade das imagens que estão por vir.

A intensidade da longa sequência da tentativa de tomada da colina realmente impressiona, ainda que alguns detalhes digitais – o sangue resultante de tiros – destoem dos inúmeros efeitos práticos e do espetacular trabalho de dublês, um dos melhores vistos em produções do gênero desde o subestimado Códigos de Guerra (2002), de John Woo. Ao assumir a condição de fita de ação, e sendo analisado como tal, algumas simplificações dramáticas do longa tendem a incomodar menos, como a visão unilateral do conflito que reduz os inimigos japoneses a máquinas kamikazes incontroláveis. O mesmo vale para o tratamento de toques fetichistas dado à violência extrema, que já marcara o trabalho de Gibson em A Paixão de Cristo (2004), e que se mostra contrário à postura não violenta do protagonista.


Esse aspecto paradoxal paira sobre toda a projeção, com as motivações de Doss, por vezes, soando conflitantes. Mais do que guiado pela religião ou por uma convicção no pacifismo como ferramenta para um mundo melhor, o personagem parece encontrar nessa ideologia um modo de compensar o peso por quase ter matado o próprio pai com um revólver ao impedir que ele violentasse sua mãe. Dessa forma, a redenção surge como a grande busca de Até o Último Homem, seja a do protagonista, a do pai - um homem truculento, mas que abomina a guerra -, a do soldado (Luke Bracey) e do capitão (Sam Worthington) que consideravam Doss um covarde, e a do próprio Gibson, cujas atitudes condenáveis na vida particular comprometeram seriamente sua imagem e carreira. Essa vontade de se redimir reflete nos exageros de heroísmo do último ato, incluindo a verdadeira santificação do plano final, mas, por trás dessas irregularidades e justificativas morais questionáveis, existe uma história realmente única e incrível a ser contada. E Gibson, mesmo com seus defeitos, sabe como contar uma história.

As duas abas seguintes alteram o conteúdo abaixo.
avatar
é formado em Publicidade e Propaganda pelo Mackenzie – SP. Escreve sobre cinema no blog Olhares em Película (olharesempelicula.wordpress.com) e para o site Cult Cultura (cultcultura.com.br).
avatar

Últimos artigos deLeonardo Ribeiro (Ver Tudo)

Comentários