Crítica

Clichê nº 1: Rory Jansen (Bradley Cooper) é um escritor de ficção.

Clichê nº 2: Rory tem talento, mas dificuldade para emplacar sua literatura.

Clichê nº 3: Rory sofre pressão familiar por escolher um métier que não paga as contas.

Clichê nº 4: Rory é o melhor personagem de si próprio.

Clichê nº 5: Rory publica a sua metaficção e é um sucesso.

Se estes cinco momentos lhe irritaram, então tente imaginar o desdobramento da história. As Palavras não é um início promissor para os diretores estreantes Brian Klugman e Lee Sternthal. Prova de que duas cabeças não pensam melhor do que uma, o roteiro assinado pela dupla conseguiu reunir clichês de gênero – o que não é necessariamente ruim – e enfatizá-los como tais – o que é péssimo.

A maior parte da história nos é contada pela voz em off de Clay Hammond (Dennis Quaid). Hammond faz a leitura de seu livro, cujo protagonista é o alter ego Rory Jansen. A estrutura previsível – história dentro da história – enfraquece ainda mais diante do fato que catapulta Jansen à fama.

Em viagem de lua-de-mel a Paris, a recém-esposa Dora (Zoe Saldana) presenteia o escritor com uma pasta de couro. Nela, há um manuscrito. Para um escritor desesperado, nada se parece mais com um sinal divino do que se deparar com um romance pronto e sem dono. Um bom romance. O impulso o faz transcrever o texto e entregá-lo ao editor. Ao parar de acreditar na causa, Rory deixou de se preocupar com as consequências. E elas vieram.

O livro é um sucesso de vendas. A biografia de Rory é inundada por adjetivos, vício dos críticos de todas as áreas. Os prêmios enchem a estante e a conta bancária, fazendo-o esquecer de que o verdadeiro merecedor daquilo tudo é um desconhecido azarado.

Podemos perceber isso. Muito do cinema está no insinuar. Mas o roteiro de Krugman e Sternthal não está satisfeito em sugerir; ele precisa mostrar e dizer. Por isso, seu didatismo e a falsa superioridade se impõem como falhas graves, expostas com o descuido do amadorismo.

É em um parque que o autor do manuscrito perdido encontra Rory. Nomeado apenas por “O velho” (Jeremy Irons), o sujeito narra o passado a fim de reconstituir a perda do material. E nós, que não temos nenhuma culpa disso, acompanhamos tudo.

Neste momento, o filme soa como uma lição de moral. As atuações pesam e as vozes emulam uma dramaticidade vazia. A trilha pretende emocionar, mas torna-se patética diante do contexto. Quando Hammond nos traz de volta para o presente, encerrando o extenso flashback, queremos crer que algo pode ser salvo. O que vemos, porém, continua no tom anterior, de superioridade e ensinamento. Muito barulho por nada. A mensagem, direta demais para ser uma fábula e simples demais para ser uma parábola, acaba desamparada. Assim como o espectador.

As duas abas seguintes alteram o conteúdo abaixo.
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é crítico de cinema, membro da ACCIRS - Associação dos Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul, e da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Tem formação em Filosofia e em Letras, estudou cinema na Escola Técnica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Acumulou experiências ao trabalhar como produtor, roteirista e assistente de direção de curtas-metragens.
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