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Sinopse

Ramona, Destiny e outras strippers de Nova York, cansadas dos abusos do trabalho, decidem virar o jogo e armam um plano para tirar vantagem dos seus clientes mais ricos. Quando o esquema começa a dar certo, embarcam em uma onda de extravagância e glamour. Mas logo a ambição toma conta do grupo e ameaça as amizades, ao mesmo tempo em que a lei coloca o plano em risco.

Crítica

No recente Poderia Me Perdoar? (2018), a autora Lee Israel deu a volta por cima ao contar em livro as desventuras de sua faceta como falsificadora, que lhe rendeu alguns meses de prisão domiciliar e cinco anos em liberdade condicional. No filme estrelado por Melissa McCarthy, tal jornada era reflexo de como funciona o capitalismo norte-americano, no sentido de que mesmo a ilegalidade pode ser usada como trampolim para se atingir o sucesso financeiro, por vias legais. As Golpistas, longa dirigido por Lorene Scafaria, segue a mesma prerrogativa.

Baseado em artigo publicado pala revista New York Magazine, em dezembro de 2015, o longa acompanha a jornada da um tanto quanto ingênua Destiny - nome fictício, escolhido a dedo - em meio ao (quase) sempre efervescente mundo das strippers. Badaladas e endeusadas graças às variadas apresentações sensuais no pole dance, elas faturam alto e se divertem um bocado graças aos novos ricos de Wall Street, que subitamente desaparecem quando explode a crise financeira de 2008. Em tempos de vacas magras e concorrência vinda da Europa oriental, surge então a proposta de juntar a patota para pescar homens em restaurantes aqui e ali, sempre devidamente drogados de forma que possam ser extorquidos via cartão de crédito. Simples assim.

Mais do que trazer a jornada de tal artimanha, a diretora e roteirista Lorene Scafaria deseja também retratar o relacionamento existente entre Destiny e a jornalista que escreveu a matéria, interpretada por Julia Stiles. Tal proposta pré-estabelece duas linhas temporais a serem acompanhadas pelo espectador, que de antemão sabe que aquela vida cheia de empolgação não irá terminar bem. A grande questão, entretanto, não é propriamente os rumos que a história irá tomar, mas sim a forma como ela é retratada na telona.

Pelo universo em questão, é até mesmo óbvio que As Golpistas seja um filme que não só explore como também manipule a sensualidade de suas atrizes, em um cenário pra lá de fetichista que, estranhamente, foge do sexual. Explico. Por mais que Constance Wu, Jennifer Lopez, Cardi B, Keke Palmer & cia estejam em plena forma física, exibindo seus corpos em variadas danças e/ou vestidos provocantes, a narrativa jamais vai além da sensualidade em si, como se todos os clientes fossem respeitosos o suficiente para não ultrapassar uma imaginária linha de conduta em busca de algo além do mero visual - o que, convenhamos, é difícil de acreditar ao se tratar de uma profissão que lida tão diretamente com o desejo carnal. Ou seja, há em As Golpistas um certo tom amenizador, no sentido de pouco falar de questões sexuais que, inevitavelmente, tornariam a história mais pesada - e, conseqüentemente, também a classificação indicativa.

Se por um lado tal caminho limita o alcance da história e mesmo sua veracidade, por outro é também inegável que há uma valorização extrema da mulher como dona de sua sexualidade. É este o simbolismo maior por trás da carismática personagem de Jennifer Lopez, sempre decidida sobre o que quer, por mais que não haja grandes desafios artísticos. Trata-se do típico caso de uma personagem moldada para a atriz, sem lhe exigir mais que seus dotes habituais. Cogitar premiações por seu desempenho é um tremendo exagero.

Sempre em busca da diversão sem fim, As Golpistas investe firme na proposta das amigas inseparáveis para ressaltar uma empolgação nem sempre bem justificável. Não por acaso, a diretora também aposta em uma trilha sonora dançante que tão bem combina com este clima de living la vida loca, apoiada por uma edição ágil. Correto em sua execução, trata-se de um filme até competente no que se propõe a ser, mas que poderia ser mais interessante caso não fosse tão podado em nome de uma certa leveza, inconsistente com a história apresentada.

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Jornalista e crítico de cinema. Fundador e editor-chefe do AdoroCinema por 19 anos, integrante da Abraccine (Associação Brasileira de Críticos de Cinema) e ACCRJ (Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro), autor de textos nos livros "100 Melhores Filmes Brasileiros", "Documentário Brasileiro - 100 Filmes Essenciais", "Animação Brasileira - 100 Filmes Essenciais" e "Curta Brasileiro - 100 Filmes Essenciais". Situado em Lisboa, é editor em Portugal do Papo de Cinema.
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