Crítica

Aliados é o terceiro filme live action de Robert Zemeckis após sua passagem não tão exitosa de quase uma década pela animação com captura de movimentos – cujos frutos foram O Expresso Polar (2004), A Lenda de Beowulf (2007) e Os Fantasmas de Scrooge (2009). Mas, apesar de permanecer aqui no tipo de registro clássico que costuma lhe agradar, contando a história de um casal de espiões (Brad Pitt e Marion Cotillard) que se apaixona durante a Segunda Guerra Mundial e, posteriormente, tem que lidar com as incertezas decorrentes de sua profissão e do tempo sombrio em que vivem, Zemeckis opta por, com uma premissa de grande potencial emocional nas mãos, adotar um tom mais low profile, distante do que ele fez nos recentes e ótimos O Voo (2012) e A Travessia (2015). Talvez por isso o final de Aliados, em que o diretor enfim tenta arrancar lágrimas do espectador com um apêndice choroso ao epílogo, incomode tanto, já que soa incoerente com a discrição predominante no restante do filme.

Esse encerramento também é problemático na medida em que força a redenção de uma determinada personagem, tornando suas motivações e sentimentos menos dúbios, quando boa parte da força de Aliados vem justamente da dúvida que o espectador carrega, junto ao protagonista interpretado por Pitt, sobre aquela figura. Há na construção dessa dubiedade, envolta num clima de thriller de espionagem, um profícuo diálogo com clássicos do gênero, sobretudo os de teor antinazista, como Confissões de um Espião Nazista (1939), de Anatole Litvak, Uma Aventura em Paris (1942), de Jules Dassin, além, claro, dos hitchcockianos Correspondente Estrangeiro (1940) e Interlúdio (1946) – o que, a princípio, tornaria Aliados uma experiência bastante prazerosa.

Ao mesmo tempo, o filme aposta num teor trágico para a história de amor que está no centro de sua narrativa, fazendo lembrar, aqui e ali, o belo O Paciente Inglês (1996), de Anthony Minghella – inclusive, a cena da primeira relação sexual entre os personagens de Pitt e Cotillard, que se passa dentro de um carro no deserto do Marrocos tomado por uma tempestade de areia, parece ser uma referência direta a Minghella.

No entanto, e apesar do esmero de Zemeckis com a linguagem cinematográfica, que resulta em alguns ótimos momentos (além da cena de sexo citada, há outras duas, também dentro de carros, muito bem construídas pelo diretor, com usos inteligentes do som e do tempo dos planos para a criação da tensão), Aliados não consegue ter a leveza e o charme dos thrillers antinazistas clássicos ou a intensidade dramática de O Paciente Inglês. A impressão geral é de um filme muito bonito visualmente, beleza consequente do absoluto entendimento do cinema por seu experiente diretor, mas insosso enquanto história contada.

Nesse sentido, Aliados está mais próximo das animações que Zemeckis parou de fazer (belas plasticamente, mas com narrativas desinteressantes) do que de seus melhores momentos em live actionForrest Gump: O Contador de Histórias (1994), a trilogia De Volta para o Futuro (1985-1989) e Contato (1997), todos filmes caracterizados não só por esse imenso cuidado com o visual, recorrente na obra do diretor, mas também por um desenvolvimento absurdamente competente de tramas muito envolventes.

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é um historiador que fez do cinema seu maior prazer, estudando temas ligados à Sétima Arte na graduação, no mestrado e no doutorado. Brinca de escrever sobre filmes na internet desde 2003, mantendo seu atual blog, o Crônicas Cinéfilas, desde 2008. Reza, todos os dias, para seus dois deuses: Billy Wilder e Alfred Hitchcock.
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