A Sapatona Galáctica

Crítica


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Sinopse

A Sapatona Galáctica acompanha a Princesa Saira, herdeira introvertida do planeta Clitópolis, que vê seu coração partido quando a caçadora de recompensas Kiki termina o relacionamento. Quando Kiki é sequestrada por um grupo extremista do futuro, Saira é forçada a sair de sua zona de conforto e partir em uma corrida contra o tempo para entregá-los um artefato lendário que ela sequer possui. Fantasia.

Crítica

Eis, aqui, um filme cuja própria realização já se apresenta como um feito e tanto. Como assim, uma animação em longa-metragem sobre uma garota lésbica, princesa de um planeta habitado apenas por mulheres, sofrendo pela primeira desilusão amorosa da adolescência? E mais: ela logo se vê em meio a uma aventura espacial, tendo que lidar com governantes rivais, trapaceiros de sorrisos enganadores, sequestradores mercenários e ajudas inesperadas que poderão mudar sua visão a respeito de tudo que está acontecendo, inclusive as intenções que a colocaram no meio desse imbróglio. Mesmo diante de todos os cenários contrários, A Sapatona Galáctica não apenas existe, como seus méritos vão além de sua mera apresentação. De estrutura dinâmica, um bom humor contagiante, sacadas inteligentes e uma condução tão sarcástica quanto certeira, o conjunto se mostra sólido o suficiente para se sustentar nos próprios pés, além dos méritos extra fílmicos que tanto incentivam quanto se mostram condescendentes quando o conteúdo não se confirma à altura das expectativas. Algo que aqui, felizmente, não se faz necessário.

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A história já começa com um deboche a respeito de um dos maiores clichês sobre a cultura lésbica: o quanto as mulheres homossexuais seriam dependentes uma das outras, com casais formados quase que instantaneamente e com duração eterna. Pois bem, não é exatamente o que acontece com a Princesa Saira, filha das rainhas Leanne e Anne. Essas duas encarnam justamente essa representatividade consolidada no imaginário popular: logo após terem se conhecido, começaram um namoro que rapidamente evoluiu para um casamento, união essa que permanece sólida e inabalada mesmo após muitos anos juntas. Elas encarnam um ideal perseguido por todas as súditas. Justamente por isso, a condição de solteira da filha real é tanto uma exceção, quanto uma vergonha. Quando essa começa a namorar com a valentona Kiki, tudo parecia ter se resolvido. Mas enquanto essa queria se divertir a aproveitar das benesses da realeza, a outra sonhava com pôneis cor-de-rosa e um amor para sempre. Uma buscava aventura e entretenimento, a outra esperava ter alcançado paz e conforto. Obviamente, a relação não durou muito. Eis como o filme começa: com Kiki terminando com Saira. E essa mergulhando numa depressão que parecia não ter fim.

Porém, nada como um dia – ou minutos – após o outro. E se um planeta habitado apenas por mulheres apaixonadas umas pelas outras é possível, não causa espanto conceber o oposto: uma realidade formada por homens broncos, infantilizados, sem saber lidar com o sexo oposto e acostumados a transitar por uma constante quinta série. Pois são esses, aqui apelidados de “maliens” (machos + alienígenas), que conseguem, sabe-se lá como, sequestrar a valente Kiki. E dela exigem algo que, supostamente, seria a chave para que eles consigam conquistar as “gatinhas” (em inglês, o termo que usam é “chicks”, ou seja, “galinhas”). Eles não querem passar pelo processo do flerte, dos galanteios, do romance e de um eventual envolvimento amoroso. Querem, sim, que elas se atirem aos pés deles, que venham rastejando e implorem pela atenção masculina. Parece piada de desenho, mas o quão próximo da realidade do lado de cá da tela isso não parece ter se inspirado?

A única capaz de salvar a garota abduzida é… Saira. E por mais que ela tema, se verá obrigada a deixar sua zona de conforto e partir para uma jornada que nunca imaginou ser capaz de empreender. Num filme que parece estar sempre esperando pelo próximo instante para fazer uma nova brincadeira ou rir da situação na qual os personagens se veem envolvidos, combinando um olhar crítico com um entendimento a respeito desse universo bastante particular – e, curiosamente, ao mesmo tempo universal – o caminho da heroína para reconquistar seu grande amor, tanto literal, quanto de forma figurativa, passará por lições que se mostrarão de mais fácil aprendizado interno do que em relação ao que se passa no exterior. Saira precisa, afinal, se tornar mulher, crescer e perceber que o mundo ao seu redor é maior do que aquilo que conseguia observar a partir do sofá no qual estava sempre encolhida por debaixo do cobertor. Se abrir para novas possibilidades faz parte do amadurecimento, independente da orientação sexual de cada um. Ilustrar tal percurso por meio de uma abordagem completamente inusitada é um dos maiores charmes dessa obra singular e de fácil assimilação.

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Apesar do título que já chega derrubando portas, A Sapatona Galáctica vai se revelando bem mais comportado durante o desenrolar dos seus eventos. A protagonista, afinal, tá mais para ‘sapatinha’, e o contexto espacial serve apenas para melhor identificar as diferentes vertentes de comportamento, da agressividade masculina que serve apenas para disfarçar um poço de inseguranças – o que não a justifica em absoluto, mas ao menos serve como argumento para compreensão – às atitudes de meninas em busca de um lugar no mundo. Assim, o longa das diretoras Emma Hough Hobbs e Leela Varghese – ambas estreantes no formato – demonstra não apenas coragem em assumir tal discurso, mas acima de tudo inteligência e perspicácia por fazer uso de signos de imediata identificação, ao mesmo tempo em que não abre mão de uma linguagem própria do público ao qual se dirige. E ao apontar numa plateia específica, demonstra um alcance maior e mais duradouro. Ponto para elas!

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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