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Sinopse
Em A Mulher Que Chora, Miguel, um menino de sete anos, vive em uma casa com três gerações de mulheres e enfrenta o distanciamento da mãe após o divórcio. Ao se aproximar de Carmen, uma imigrante venezuelana que trabalha como doméstica, ele encontra acolhimento e passa a explorar um universo em que realidade e imaginação se entrelaçam. Drama.
Crítica
São muitas as mulheres que choram no filme escrito e dirigido por George Walker Torres. Curiosamente, no entanto, o cineasta faz um movimento inteligente, e ao reconhecer o seu ponto de vista, escolhe justamente o único personagem masculino da história como protagonista. Miguel, interpretado com cautela pelo estreante Zayan Medeiros, é um menino que vive praticamente sozinho em uma casa enorme, habitada por muitas figuras femininas, cada uma habitando universos particulares e aos quais ele não tem acesso – por mais que tente, se esforce, insista. Cada uma, a seu modo, desfruta de uma dor bastante própria. Enquanto isso, o garoto segue em sua investigação quanto o mundo a seu redor, refletindo sobre o que lhe acontece, a respeito daquilo que experimenta, dos atravessamentos que experimenta. Em A Mulher Que Chora, a lenda da esposa e mãe que assassina os próprios filhos para se vingar do marido que a abandona é refletida no sentimento de alguém em formação, em um impacto cuja dimensão ainda está para ser avaliada e descoberta.

É importante esclarecer que a referência, tão popular em comunidades latinas e explorada por Hollywood em A Maldição da Chorona (2019), é também ponto de partida de A Mulher Que Chora. Porém, que se faça necessário ressaltar: a abordagem não apenas é distinta, como o discurso percorrido é tão outro a ponto do espectador ser levado a se questionar, em mais de uma ocasião, se ambas narrativas teriam tido a mesma inspiração. O longa abre com a narração desse episódio que gerou a lenda, sua decepcionante tristeza e a trágica consequência provocada por uma insatisfação avassaladora. Miguel, por sua vez, vive em uma outra realidade. Em uma cidade do sul do Brasil – a geografia não é explícita, mas se as araucárias surgem como apontamentos, o discurso político dos personagens adultos surge ainda mais definidor das origens e localização – ele está, ao lado da mãe, refugiado na casa da avó. Esta, por sua vez, cuida da matriarca da família, inválida e sem se comunicar. Para finalizar, há a empregada venezuelana que ajuda a todos, ao mesmo tempo em que busca não esquecer de si mesma.
Os momentos dessa última em particular, quando se imagina sozinha no quartinho dos fundos, são interrompidos pela criança resoluta a não dormir sozinha. No meio da noite, é a visita dele que irrompe quarto adentro, pedindo por um carinho e uma atenção que ninguém mais se mostra disposto a concedê-lo. A mãe está por demais abalada pela recente separação, lidando com o fato de ter sido trocada por outra, ao mesmo tempo em que precisa dar um novo rumo para sua vida. A avó dedica seus cuidados àquela que um dia foi por responsável por ela, e a bisavó talvez esteja percebendo o que se passa ao seu redor, mas talvez não. Algo que nunca se saberá. Resta apenas a funcionária, mais vista como serviçal, por ser estrangeira, por ser dependente. A inversão de valores é visível. Esquecem que é também mulher, mãe e carente. Assim, substitui o menino pelo seu próprio, deixado para trás no seu país de origem. Encontra no visitante um filho. Da mesma forma como ele busca nela uma figura materna.
Isso não impede que agressões entre eles aconteçam. Pois o pequeno rapaz é também uma pessoa sendo construída, e enquanto reflexo daquilo que até ele chega, é também espelho do que ainda não compreende, mas de um jeito enviesado busca reproduzir. Enquanto for apenas uma palavra mal colocada ou um gesto equivocado, ainda há tempo para arrependimento e um pedido de desculpas. Mas são tantas as violências às quais ele se vê sujeito, que não tardará a se ver repetindo os mesmos atos, num escalonamento que a partir de certo ponto não terá mais volta. Todos esses sentimentos, muitos deles até mesmo controversos, são colocados em cima da mesa por um conjunto de personagens sofridos, desesperados por encontrar um meio não apenas para seguirem em diante, mas também em descobrir como sobreviver em meio à tormenta. Uma tarefa nunca das mais fáceis, mas também longe de ser impossível. Sofrida, é claro. Mas capaz de ser superada.

George Walker Torres, ele mesmo venezuelano, mas há anos atuando no Brasil, faz desse Miguel não apenas um posto privilegiado de observação, mas também receptáculo de esperanças e apostas de um caminho a ser desbravado e digno de conquista. A Mulher Que Chora explora sensibilidades por meio de uma narrativa concisa, não afeita à discursos ou exposições, mas precisa no pouco que revela e no muito que abraça por meio de imagens, olhares e impressões. Assim, o filme vai além de uma primeira leitura, estabelecendo comentários sobre intimidades, mas não apenas: há um viés crítico e social do qual não se pode desviar, confirmando sua intenção em debater não apenas o que se mostra em curso entre essas paredes, mas também muito do que acontece longe de tais limites, e ainda assim capaz de influenciar estes aqui envoltos. Parece pouco, mas o que impressiona de fato são os múltiplos – e diversos – desdobramentos à altura não apenas de entendimento, mas de uma reflexão profunda e duradoura.
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Grade crítica
| Crítico | Nota |
|---|---|
| Robledo Milani | 9 |
| Alysson Oliveira | 8 |
| Francisco Carbone | 8 |
| MÉDIA | 8.3 |

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