Em Os Irmãos Segreto, os irmãos Pasquale, Gaetano e Alfonso deixam a pobreza da Itália no fim do século XIX para recomeçar a vida no Rio de Janeiro. Entre pequenos crimes, a agitada vida noturna carioca e o surgimento do cinema no Brasil, eles constroem uma trajetória extraordinária que mistura fatos históricos e elementos de fábula.
Misturando biografia e documentário, este é o enredo da mais nova aposta da dupla de diretores Michele Manzolini e Federico Ferrone. A obra, aliás, conta com narração brasileira de Paulo Betti e é um dos destaques da 8½ Festa do Cinema Italiano por Generali 2026. E para falar mais sobre a aposta, o Papo de Cinema conversou, remotamente, com Manzolini e Ferrone. A seguir, fique com um trecho em texto e, em seguida, com o bate-papo, na íntegra, em vídeo:
ENTREVISTA :: MICHELE MANZOLINI E FEDERICO FERRONE, DIRETORES DE OS IRMÃOS SEGRETO
Ao comentar a construção de Os Irmãos Segreto ao lado de Manzolini, Ferrone explicou que o formato híbrido da obra surgiu da própria escassez de informações concretas sobre os personagens retratados, exigindo uma abordagem que transitasse entre pesquisa histórica, imaginação e tradição oral.
“Foi uma constatação dos fatos. Não existem muitas informações sobre os irmãos Segreto. Diante disso, entendemos que a melhor maneira de fazer o filme era justamente construir uma espécie de lenda. Existem fatos comprovados, documentos e acontecimentos que conhecemos e que estão presentes no filme. Mas também existem muitas coisas que provavelmente nunca teremos condições de saber.”

Segundo o cineasta, essa ausência de respostas definitivas abriu espaço para uma narrativa inspirada na forma como as histórias atravessam gerações e vão sendo transformadas ao longo do tempo. “Como acontece com as lendas, existem histórias que passam de uma pessoa para outra, de geração em geração. Nesse processo, algumas coisas se tornam totalmente ficcionais, enquanto outras podem acabar sendo até mais verdadeiras do que a própria verdade histórica. O filme nasce justamente dessa ideia”.
Na sequência, Ferrone destacou o extenso trabalho de pesquisa realizado para reunir imagens históricas que servissem de base para a narrativa, construída a partir de arquivos raros e de uma narração que assume um tom quase mítico. “Existe uma pesquisa muito grande feita principalmente por pesquisadoras brasileiras em busca de imagens filmadas no Brasil e no Rio de Janeiro entre o final do século XIX e o início do século XX. A partir desse material, somado a imagens do Rio de Janeiro contemporâneo, construímos uma narrativa conduzida pela voz de uma espécie de avó, uma amiga dos irmãos Segreto, que conta essas histórias para nós”.
O diretor também ressaltou que a proposta nunca foi produzir um documentário objetivo ou definitivo, mas sim uma obra movida pelo afeto. “Talvez essa narradora tenha conhecido os irmãos Segreto. Talvez não. Mas isso não é o mais importante. Não queríamos fazer um filme objetivo. É, acima de tudo, um ato de amor pela cidade, pela memória e pela relação histórica entre Brasil e Itália”.
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