O nosso papo é de cinema!


Cães de Guerra

10/09/2016    

 

Crítica

04-caes-de-guerra-papo-de-cinema

Giba Assis Brasil, um dos melhores montadores nacionais em atividade, premiado no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro e nos festivais de Gramado, Brasília e Cine Ceará, costumava dizer, nas aulas de roteiro que ministrava, “que se a realidade pode se dar ao luxo de ser por vezes absurda, é tarefa da ficção ser plenamente crível e verossímil”. Pois bem, qual não é o prazer de um contador de histórias quando se vê diante de uma história real tão inacreditável que tudo o que tem a fazer para adaptá-la em um produto cinematográfico é, simplesmente, minimizá-la até o ponto de ser ao menos razoável? Pois provavelmente esta foi a tarefa assumida por Todd Phillips ao se deparar com a trama de Cães de Guerra, uma daquelas comédias das quais se ri de nervoso frente a tantas situações surreais que somente assumindo-as como verdadeiras para serem, enfim, admissíveis.

David Packouz (Miles Teller) era mais um jovem norte-americano sem rumo na vida quando reencontrou um antigo colega da escola, Efraim Diveroli (Jonah Hill). Enquanto o primeiro tentava se manter como massagista profissional, ao mesmo tempo em que acreditava ter uma grande oportunidade em mãos ao investir no comércio de lençóis para asilos (uma ideia que logo se revelou sem futuro), o amigo havia se mudado de Miami para Los Angeles, onde, ao lado de um tio, aprendeu todos os macetes do negócio de armas. Em um país altamente militarizado, esse sempre pareceu ser um mercado próspero. O que os dois, agora já sócios, estavam prestes a descobrir às vésperas da Guerra do Iraque é que não há nada melhor para uma atividade como essa do que um conflito bélico em vista. E assim que, quase por acaso, conseguem fechar um contrato de US$ 300 milhões com o Pentágono, ambos se veem em sérios apuros para tentar cumprir os termos do acordo.

02-caes-de-guerra-papo-de-cinema

‘Cães de Guerra’ é uma expressão usada para designar intermediários que, assim como esses dois, ganham a vida a partir dos esforços dos outros, sem, na prática, sujarem as próprias mãos. São autointitulados profissionais que negociam compra e venda de armamentos, equipamentos militares e artilharia variada, apenas conectando oferta com procura, sem sequer chegar a conhecer um ou outro. Neste caso em específico, a vida de ambos estaria para sempre garantida se tivessem se contentado com os peixes pequenos que os verdadeiros tubarões há muito deixavam de lado. Porém, quando esse acerto em específico surge no cenário deles, tal tentação se revelou forte demais para ser ignorada. E ao se verem obrigados a cumprir uma demanda muito além das possibilidades com as quais estavam acostumados, são obrigados a lidar com outros atravessadores muito mais experientes – e com agendas com as quais eles, em suas ingenuidades, nem ao menos imaginavam.

Há não menos de dois anos, Miles Teller aparecia na tela como um dos amigos de Zac Efron em Namoro ou Liberdade? (2014). Se desde então o ex-galã Disney repetiu praticamente o mesmo personagem descamisado em títulos como Vizinhos (2014) e Os Caça-Noivas (2016), Teller tem visivelmente buscado uma maior diversidade, indo de sagas como Divergente a heróis dos quadrinhos como Quarteto Fantástico (2015), passando pelo drama indicado ao Oscar Whiplash: Em Busca da Perfeição (2014). Cães de Guerra se encaixa melhor nessa última corrente, investindo em uma narrativa tensa, absurdamente cômica e sem medo de ousar em decisões mais arriscadas. Porém, ainda que seja ele inegavelmente o protagonista, a verdadeira força do filme é Jonah Hill, deixando claro que as duas indicações ao Oscar que soma até o momento não foram obra do acaso. A insanidade permanente em seu olhar, a lábia afiada e o perfil dissimulado, do qual nunca se sabe o quanto do dito é de fato verdade, colaboram para fazer desse um dos tipos mais complexos de sua filmografia.

05-caes-de-guerra-papo-de-cinema

Todd Phillips, curiosamente, é também o responsável pela trilogia Se Beber Não Case e por comédias ligeiras como Um Parto de Viagem (2010). Este, talvez, seja o ponto em falso do filme, pois uma vez que o cineasta é novato no estilo, termina por se apoiar exageradamente num ritmo histriônico e excessivamente narrativo similar ao de sucessos como O Lobo de Wall Street (2013) – sensação reforçada pela presença de Hill – e A Grande Aposta (2015). Bradley Cooper, em participação discreta, porém não menos ameaçadora, faz as vezes de Brad Pitt nesse último, envolvendo-se também na produção do projeto, quase que numa contrapartida em favor do seu antigo parceiro, o diretor que o revelou na saga dos três amigos festeiros que aprontavam todas nas vésperas de um casamento qualquer. A diferença, entre o antes e o agora, é que se lá estávamos todos, em ambos os lados da tela, cientes de que tudo não passava de mera fantasia, aqui a dúvida permanece do início ao fim. Um mérito tão duvidoso que, talvez com menos, o resultado fosse ainda melhor.

Nota da crítica

3.5/5

avatar

Robledo Milani é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.

Mande um mail para Robledo

Veja outros textos assinados por Robledo Milani

Ficha Técnica

503456.jpg-c_215_290_x-f_jpg-q_x-xxyxxNOME ORIGINAL: War Dogs

PAÍS DE ORIGEM: EUA

ANO: 2016

DURAÇÃO: 114 min

GÊNERO: Comédia, Crime, Drama

DIREÇÃO: Todd Phillips

ROTEIRO: Stephen Chin, Todd Phillips, Jason Smilovic, Guy Lawson

FOTOGRAFIA: Lawrence Sher

MONTAGEM: Jeff Groth

MÚSICA: Cliff Martinez

FIGURINO: Michael Kaplan

ESTÚDIO: Green Hat

PRODUÇÃO: Bradley Cooper, Mark Gordon, Todd Phillips

ELENCO: Jonah Hill, Miles Teller, Bradley Cooper, Ana de Armas, Kevin Pollak, Steve Lantz, Gregg Weiner, David Packouz, Eddie Jemison, Julian Sergi, Daniel Berson, Edson Jean, Ali Chen, Alan Trujillo

Sinopse

Dois amigos de infância, moradores de Miami Beach, levam uma vida tranquila e só queriam dinheiro para sustentar seu vício em maconha. Tudo muda, no entanto, quando descobrem que existe um mercado ilícito em expansão com a venda de armas para o exterior. Ao fecharem um contrato de 300 milhões de dólares com o governo norte-americano, eles terão que se envolver pessoalmente no negócio, em viagens ao outro lado do mundo para acompanhar a explosiva transação em meio à zonas de guerra.

Curiosidades

- Globo de Ouro 2017: indicado a Melhor Ator em Comédia ou Musical (Jonah Hill);

- O longa se baseia em um artigo da revista Rolling Stone, escrito por Guy Lawson, que contava a história de dois amigos que viraram grandes comerciantes ilegais de armas;

- Jesse Eisenberg e Shia LaBeouf foram cotados para o lugar de Miles Teller;

- Jonah Hill, que havia emagrecido, teve de engordar para o papel;

- Quarta colaboração entre Todd Phillips e Bradley Cooper, que antes trabalharam juntos na trilogia Se Beber, Não Case! (2009);

- Arrecadou mais de US$ 60,4 milhões nas bilheterias de todo o mundo;

  • Deixe um comentário

XHTML: Você pode usar estas tags: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

  • "Minha Mãe é Uma Peça 2" (Paris)

    4ªSemana: 751 mil espectadores

    Público Total: 6,6 milhões de espectadores

  • "Assassin`s Creed" (Fox)

    Estreia: 729 mil espectadores

    Público Total: 730 mil espectadores

     

  • "Moana: Um Mar de Aventuras" (Disney)

    2ªSemana: 680 mil espectadores

    Público Total: 2,4 milhões de espectadores

  • "Passageiros" (Sony)

    2ªSemana: 222 mil espectadores

    Público Total: 1 milhão de espectadores

  • "Eu Fico Loko" (Paris)

    Estreia: 222 mil espectadores

    Público Total: 224 mil espectadores