Crítica


8

Leitores


5 votos 8.4

Sinopse

Na segunda parte da 5ª temporada de Stranger Things, estamos de volta à Hawkins, no outono de 1987. Vecna desapareceu e a cidade está sob quarentena militar, com o governo em busca de Eleven. A batalha final se aproxima, com uma escuridão ainda mais poderosa e letal do que qualquer outra enfrentada até agora. Aventura.

Crítica

Complicado analisar cada ano de Stranger Things, série em cinco temporadas da Netflix, como volumes isolados. Afinal, todos os episódios estão por demais conectados uns com os outros, e por mais que por vezes possam soar repetitivos – e de fato foram, em mais de uma ocasião – são parte de um todo único, pensado como uma só proposta. Não se trata de uma minissérie (por mais que a estrutura, ainda que estendida, seja essa) ou uma estrutura procedural, cujos interesses são renovados a cada novo capítulo. Pelo contrário, o último – e quinto – volume se apresenta como o desfecho de algo pensado muito antes, fechando pontas e desenhando conclusões há muito almejadas. Isso não diz necessariamente que a Parte 02 da quinta temporada tenha entregue uma experiência das mais satisfatórias. Houve acertos, sim, porém há de se reconhecer os deslizes. O curioso é que, para um programa que há tempos vinha alimentando sua fanbase com exatamente aquilo pelo qual essa tanto ansiava, tenha decidido, justo em sua reta final, se manter altivo e optar por um encerramento de acordo com o que fora imaginado desde o início. Enfim, não preocupado em apenas agradar aos mais radicais. Uma decisão que revela tanto coesão narrativa, como coragem resguardada – afinal, não haverá uma nova leva de acontecimentos para os quais retornar. É o fim, e como tal foi encarado.

20260113 stranger things temporada 5 2025 papo de cinema

Dividida em duas partes de quatro episódios cada, essa quinta temporada de Stranger Things, desde o início anunciada como a última, deixava claro seu objetivo: a batalha final entre Vecna, o mal encarnado, e as crianças, aquelas que até então estavam sendo usadas e visadas por esta entidade maligna. Se o grupo humano de resistência havia se mantido razoavelmente coeso, a divisão entre eles se mostrou imperativa, com diferentes núcleos agindo de forma separada e em paralelo. Faz sentido termos Eleven (Millie Bobby Brown, mantendo a mesma expressão do início ao fim) e Hooper (David Harbour, que de coadjuvante se tornou com esse papel um protagonista viável em Hollywood) lado a lado, visto o quanto tinham para acertar entre eles, assim como o triângulo amoroso formado por Jonathan (Charlie Heaton), Nancy (Natalia Dyer) e Steve (Joe Keery) não tinha como se sustentar por muito tempo. Tanto é que enfim recebem a atenção buscada quando a eles se junta Dustin (Gaten Matarazzo) e duas duplas se formam, uma para separar (Jonathan e Nancy) e outra para se unir de vez (Steve e Dustin).

As ligações emocionais entre os personagens sempre foram uma das características mais marcantes do show criado e dirigido pelos irmãos Duffer. Grande parte do sucesso alcançado por Stranger Things se deve pela coesão fraternal que desde o início se mostrou perceptível entre os quatro meninos: Dustin, Lucas (Caleb Mclaughlin), Mike (Finn Wolfhard) e Will (Noah Schnapp). E se foi sobre os ombros deste último que muitas das responsabilidades recaíram neste ano de encerramento, ele deixou claro estar à altura dessa missão já no episódio 04, o último da Parte 01. Agora, nessa Parte 02, volta a atrair os olhares e gerar debate, nem tanto por algo que descobriu em si, mas por ter finalmente criado coragem para encarar quem ele é de fato, também se mostrando disposto a compartilhar sua verdade com os demais. O seu momento de se assumir é também um convite a todos saírem das sombras que limitam e se coloquem prontos para abraçar aquilo que são sem mais se esconder. A metáfora é óbvia, pois esse é também o maior desafio dos personagens contra um mal que existe naquele que denominam de “mundo invertido”.

Grandes nomes, como Winona Ryder (alegadamente o maior cachê do elenco), Matthew Modine (que deixou o programa na quarta temporada) e a recém chegada Linda Hamilton não chegaram a dizer a que vieram, confirmando que suas participações eram mais um atestado de prestígio da empreitada e menos uma necessidade narrativa. Por outro lado, novos talentos, como Maya Hawke (o sobrenome não esconde a herança genética), Sadie Sink (Max, rebeldia ternura), Priah Ferguson (Erica, atitude e perspicácia) e a revelação Jake Connelly (Derek, agora ‘delightful’) foram acréscimos que confirmaram suas inclusões, uns crescendo ao longo das temporadas, e o último como a presença a ser lembrada dessa leva derradeira de episódios. Vecna, por sua vez, se mostrou uma figura a ser temida mais pela expectativa e por aquilo que se supunha ser capaz de fazer, do que pelo que de fato foi capaz de executar. Jamie Campbell Bower trabalhou bem suas expressões faciais e uma desenvoltura física adequada a uma figura tão imponente, mas os embates factuais entre os dois polos ou acabaram soterrados por efeitos visuais que miravam uma grandiosidade que a telinha não comporta, ou se mostravam frágeis pela própria lógica assumida – afinal, este é um programa de censura livre, com público infantil como uma das suas maiores fatias de audiência. Nada muito explícito ou radical, portanto.

20260113 stranger things temporada 5 papo de cinema

Stranger Things chegou ao fim do jeito que deveria, como um círculo que se completa, voltando ao ponto de partida, ao mesmo tempo em que se preocupou em passar o bastão para uma nova geração. Pegando emprestado das histórias em quadrinhos e dos contos de super-heróis apenas o suficiente para despertar curiosidades e interesses, recolheu-se numa aparente normalidade de cidade do interior – o que Hawkins não deixa de ser, que fique claro – para se aproximar de uma universalidade necessária a qualquer obra de sucesso disposta a ir além de uma febre da estação. E se muito se falou sobre o amadurecimento do elenco, principalmente o jovem, que começou com crianças que agora se apresentam como jovens adultos, já distantes das idades dos seus personagens, ao menos há lógica nisso, pois tal crescimento acompanhou também a plateia disposta a aplaudir, temer e respirar aliviado a cada temporada. Longe do ideal, mas próximo do esperado de acordo com os dramas pensados. As coisas, como se percebe, podem ser estranhas, mas não desprovidas de sentido.

As duas abas seguintes alteram o conteúdo abaixo.
avatar
é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
avatar

Últimos artigos deRobledo Milani (Ver Tudo)

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *