Crítica


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Sinopse

John Douglas passou anos perseguindo serial killers e estupradores, desenvolvendo seus perfis para prever seus próximos passos. A série discutirá alguns de seus casos mais publicizados, como o homem que caçava prostitutas no Alaska, o assassino de crianças de Atlanta e o matador de Green River.

Crítica

As pessoas não costumam resistir a um bom mistério. Talvez (e aqui vai uma teoria) porque temos esta necessidade instintiva de conhecer as coisas com que interagimos, para ter controle sobre elas ou apenas para ter certeza de que as mesmas não nos farão mal. E, quando algo desconhecido e intrigante surge numa narrativa ficcional, ainda há a expectativa, acordada mutuamente por séculos entre público e obras, de que haverá um desfecho, uma explicação, uma luz em meio às sombras inicialmente apresentadas – por isso, provavelmente, que bons filmes, seriados ou livros de suspense, ao invés de nos incomodar com essas incertezas, acabam por nos magnetizar pela promessa implícita de solução. O cineasta David Fincher, aliás, entende muito bem essa dinâmica e aqui dá um passo além. Por toda a sua carreira, ele demonstrou um estilo que podemos classificar como “extremamente narrativo”, ou seja, construído para conduzir o espectador, seu olhar, suas expectativas – o que, ironicamente, retira o pouco controle que aqueles do lado de cá da tela têm sobre o que estão assistindo. Ora, se analisarmos as motivações dos assassinos apresentados nesta primeira temporada de Mindhunter, podemos encontrar em todos eles, da mesma forma, esse mesmo primitivo impulso de controle – provavelmente por isso que mistérios envolvendo serial killers e David Fincher é uma combinação que sempre casou tão bem.

Aliás, é muito interessante perceber, para além disso, como certos cineastas têm um tipo de personagem, personalidades que melhor se encaixam em seu estilo, na sua narrativa e na sua abordagem. Pegue Steven Spielberg, por exemplo, que já foi um mestre em conduzir as emoções do espectador, fazendo-o navegar do drama à tensão, da energia às sequências de ação e à empatia pura de um momento mais delicado, sempre tendo sob suas lentes figuras que, por mais variadas que fossem, carregavam consigo valores intrínsecos ao seu cinema: a honra, a família, o caráter e o amor manifestado de qualquer maneira. Provavelmente por isso era tão desastroso assisti-lo tentando conduzir uma obra que havia sido planejada para Stanley Kubrick, um realizador metódico dono de histórias duras e racionais, o que resultou no falho A.I.: Inteligência Artificial (2001). De forma muito similar, Fincher é atraído por personagens que abraçam ou beiram a psicopatia, intelectuais e pragmáticos ao extremo, e que, de um jeito ou de outro, são rebeldes e buscam alcançar o próprio controle sobre a narrativa em que estão inseridos – o que confere a seus filmes um tom anárquico. Por essas razões que O Curioso Caso de Benjamin Button (2007) é seu filme menos eficiente, pois é, em essência, um melodrama projetado para ser preenchido com emoções em sua concepção mais purista – Fincher e Spielberg, inclusive, deveriam ter feito uma troca nesses casos citados.

Aqui, felizmente, o cineasta encontra exatamente o tipo de história e personagens que tão bem servem aos seus talentos. Em Mindhunter, o agente especial Holden Ford (Jonathan Groff) é um profissional idealista quanto ao seu trabalho de lidar com criminosos, mas é também um homem introspectivo, deveras racional e, justamente devido a atuação como negociador de reféns, um tanto inapto socialmente. Fascinado pelo que leva certos homens a cometerem crimes tão horríveis e estranhos em sua execução, ele convence o colega do Departamento de Comportamento do FBI, Bill Tench (Holt McCallany), a começar uma série de entrevistas com assassinos condenados (que existiram/existem de verdade) para entender motivações, perfis psicológicos e o modo com o qual operam – a pesquisa, que na vida real foi conduzida por John Douglas e Mark Olshaker e descrita num livro homônimo, ainda abarca a acadêmica Wendy Carr (Anna Torv), e mostra como o estudo deu luz à classificação (até então inexistente) dos assassinos seriais.

Como um típico protagonista fincheriano, Holden é vivido por Groff com uma fala monocórdia e rápida que denota raciocínio metódico e analítico – não por acaso, o ator quase foi chamado para viver o Mark Zuckerberg de A Rede Social (2010). É sintomático da sua personalidade que ele não consiga nem mesmo transar com a namorada sem se engajar num debate. Além disso, também mantém o cenho fechado e baixo, demonstrando que Ford está constantemente entediado com o comportamento convencional dos colegas de espécie. Nos raros momentos em que o agente se permite abrir mais a expressão, sabemos pelo contraste que ele está realmente curioso/assustado/impressionado. Sua prepotência e insubordinação, que se tornam mais latentes conforme os dez episódios avançam, surgem assim naturais na performance de Groff – e apesar de pouco sutil, não deixa de ser curioso perceber que a narrativa traça um paralelo claro entre o comportamento de Holden e as características que ele mesmo vai relacionando aos psicopatas entrevistados pelo grupo.

Inclusive é curioso perceber como a série incorpora esse espírito simultaneamente sóbrio, intelectual, mas também irreverente do protagonista ao investir em letreiros desnecessariamente grandes que preenchem de forma descontraída toda a tela, identificando cada nova cidade visitada pela trama. Aliás, é bastante curioso como Fincher consegue impregnar suas narrativas com o peso e a seriedade de assuntos como assassinatos em série sem, apesar disso, perder o bom humor – contido em momentos como aquele em que o enorme Ed Kemper (Cameron Britto), condenado por múltiplos homicídios e por estuprar suas vítimas, se aproxima casualmente de Holden colocando um dedo em sua garganta para mostrar o local preciso em que fizera a incisão no pescoço de uma mulher. Isso sem contar que Holt McCallany compensa o ar blasé do colega ao compor Bill como um homem cujos modos broncos disfarçam uma sensibilidade insuspeita – e ao mesmo tempo em que funciona como bússola moral às atitudes de Ford, o personagem também comove com seu drama pessoal e o modo como mantém a postura profissional e objetiva apesar de sua melancolia interna.

Já Wendy, figura do trio que tem menos tempo em tela, é vivida por Anna Torv com uma rigidez que, ao invés de torná-la antipática, hipnotiza pela precisão com condiciona seus movimentos e sua fala, ainda que as nuances sejam sugeridas, na maior parte do tempo, por dicas. Em dada altura da série, por exemplo, ela tenta se aproximar de um gato de rua, deixando latinhas de atum na janela todas as noites – o que ilustra a própria relação que ela e seus colegas mantém com os assassinos que tentam capturar e estudar, pois ela jamais vê o felino, apenas o ouve e imagina aquilo que o atraia. E não é surpreendente que o animal deixe de comparecer ao encontro noturno dos dois exatamente quando as coisas começam a ir mal no departamento de pesquisa. Enquanto isso, Hannah Gross fecha o elenco principal como Debbie, a namorada de Holden, estudante de psicologia cuja postura sempre em tom de desafio serve muito bem à persona pragmática e brutalmente honesta que o roteiro constrói – tornando-a uma coadjuvante sempre inebriante de se acompanhar.

E que o elenco trabalhe de forma tão coesa é mérito também de David Fincher, já que essa é uma característica de seus projetos, resultado de seu famoso preciosismo. As marcas registradas de direção do cineasta, aliás, estão todas aqui, como os planos estabilizados, a obsessão por acompanhar o movimento dos personagens dentro do quadro e a recusa em usar recursos chamativos sem propósito narrativo – ele dirige os dois primeiros e os dois últimos episódios, e o único momento em que emprega uma câmera de mão é nos instantes finais do desfecho da temporada, quando precisa ressaltar a instabilidade emocional e psicológica de um personagem. Além disso, ele retoma aqui a sua habitual fotografia, que praticamente fez escola em filmes policiais de suspense a partir de Seven: Os Sete Crimes Capitais (1995), em que utiliza inúmeros pontos de luz em cena para tornar a iluminação difusa, e que ainda ganha um tratamento de pós-produção para ser escura, apesar da abundância de lâmpadas, o que pode angustiar um pouco – e note como, inspiradas nas origens dos filmes policias, que remetem ao noir, as luminárias surgem quase sempre laterais, ressaltando assim de forma sombria as linhas de rosto e os cenários.

Mas o noir do diretor acaba aí. Se os filmes do gênero e os suspenses policiais clássicos se firmam por uma formalidade e elegância, David Fincher é rock’n roll. Longe das tramas demasiadamente complexas e de se dedicar a construir atmosferas surreais de angústia e pesadelo, sua narrativa sempre carrega um tom de inteligência e sarcasmo. Mindhunter absorve suas melhores características, o que a permite, por fim, fugir da ação desenfreada e investir em obrigatórios eventos impactantes para manter o público grudado na tela. Boa parte da série consiste em personagens conversando entre si, e é o magnetismo de seus debates e embates, dos mistérios que levantam e o modo pelo qual o seriado parece tão interessado nesses diálogos quanto nós, que dá ritmo ao avançar dos episódios – eles seguem um tempo tão próprio que é difícil perceber o corte entre um e outro, fazendo a temporada funcionar como um bloco inteiro.

Devido a tanto, é preciso retomar o “controle”, o impulso que nos mantém curiosos quanto a natureza humana e seus limites de brutalidade – é flagrante que a série consiga engajar tão bem o espectador sem jamais mostrar algum dos crimes de que fala. O mesmo controle que Fincher e os demais realizadores mantém sobre a narrativa, conversando com o público a nível de instinto, criando uma simbiose que, no fim, revela tanto sobre nós do lado de cá da tela quanto sobre aquelas figuras monstruosas que são o centro de Mindhunter.

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é formado em Produção Audiovisual pela PUCRS, é crítico e comentarista de cinema - e eventualmente escritor, no blog “Classe de Cinema” (classedecinema.blogspot.com.br). Fascinado por História e consumidor voraz de literatura (incluindo HQ’s!), jornalismo, filmes, seriados e arte em geral.
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