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Na edição de 2026 da Expocine, Marcelo Lima, CEO da Tonks e fundador do evento, foi direto ao ponto: plataformas e distribuidoras que insistem em reduzir o período de exclusividade das salas de cinema estão trabalhando contra seus próprios interesses financeiros. A tese, formulada sem eufemismos, colocou o debate sobre a janela de exibição no centro das discussões do setor.

Apostas esportivas e streaming disputam o mesmo orçamento de lazer

Zigmas Pekarskas, cofundador e CEO da Smart Betting Guide, acompanha esse cenário como observador do mercado de mídia digital. Para ele, o argumento de Lima aponta para algo maior do que uma briga entre dois formatos. A disputa pelo tempo e pelo dinheiro do espectador se fragmentou: as apostas esportivas on-line puxam ativamente esse mesmo orçamento de lazer, consolidando-se como uma categoria digital autônoma que concorre com cinemas e plataformas de vídeo. Pekarskas acompanha esse mercado de perto e utiliza o Smart Betting Guide como referência para orientar quem acompanha o setor.

“Burra é a plataforma ou distribuidora que não respeita a janela de exibição. Quanto mais ela encurta, menos dinheiro faz.”

Em 2026, segundo o UOL, grandes distribuidoras voltaram a ampliar as janelas de exclusividade em determinados títulos, sinalizando uma reorientação em relação às experiências do período pandêmico.

O que a pandemia ensinou, e o que Top Gun confirmou

A história recente da janela de exibição é marcada por um experimento forçado. Durante a pandemia, estúdios como a Warner Bros. adotaram estreias simultâneas em salas e plataformas de streaming. O resultado foi uma erosão da receita que só ficou evidente quando o mercado se normalizou. O sucesso retumbante de “Top Gun: Maverick” em 2022 funcionou como prova empírica do argumento de Lima: com janela respeitada, o filme demonstrou que o público ainda se desloca ao cinema quando o título justifica a experiência.

Os números dos anos seguintes reforçaram a tese. “Avatar: Fogo e Cinzas” levou cerca de seis meses para chegar ao Disney+, depois de arrecadar US$ 1,48 bilhão em todo o mundo. “A Odisseia”, dirigido por Christopher Nolan, levou 5,3 milhões de pessoas às salas brasileiras e acumula US$ 1,7 bilhão em bilheteria mundial, sem previsão de estreia em plataforma por assinatura. São casos que sustentam a lógica de Lima com precisão aritmética.

O boca a boca digital ressuscita filmes em cartaz

Um dos fenômenos mais comentados na Expocine 2026 foi o retorno do boca a boca, agora amplificado por criadores de conteúdo no TikTok, Instagram e YouTube. Lima observou que esse comportamento havia perdido força nos últimos 15 ou 20 anos, e que as redes sociais o estão reconstituindo de forma orgânica, sustentando títulos em cartaz por várias semanas.

Essa dinâmica está mudando a lógica de programação dos exibidores. Lima descreveu o mecanismo com clareza:

“Hoje, às vezes, você entra com um título naquela situação: ‘Vamos colocar esse filme aqui só com uma ou duas sessões, porque ele está com cara de que vai começar a engrenar daqui a duas ou três semanas’. Eu preciso manter o filme em cartaz, deixar ele requentando. Daqui a duas ou três semanas, a gente aumenta o espectro de sessões.”

Filmes como “Obsessão”, “O Drama” e “O Convite” foram citados por Lima como exemplos concretos de títulos que se beneficiaram desse fenômeno.

Formatos premium crescem, e as pré-vendas de Duna provam o apetite

Os chamados PLFs, ou Premium Large Formats, representam outra frente de crescimento para as salas. IMAX, XD da Cinemark e 4DX estão atraindo investimentos das redes em telas maiores, sistemas de projeção mais potentes e som mais sofisticado. A contrapartida são ingressos mais caros, e os números indicam que o público está disposto a pagar.

A evidência mais concreta surgiu nas pré-vendas de “Duna: Parte Três”, previsto para 17 de dezembro. No Cine Marquise, com 370 lugares, projeção a laser e Dolby Atmos, o salão principal estava praticamente esgotado para um horário específico, vendido com três meses de antecedência. Na segunda sala do mesmo complexo, havia apenas um ingresso vendido no momento da entrevista. O contraste é brutal. Ele revela não apenas preferência pelo formato premium, mas uma disposição ativa do público em planejar a experiência com antecedência considerável.

Fusão Warner-Paramount, vácuo regulatório e novos distribuidores

O cenário corporativo também ocupou espaço nas análises de Lima. A compra da Warner Bros. Discovery pela Paramount Skydance inclui, em acordo com 12 procuradores-gerais estaduais dos Estados Unidos, o compromisso de lançar entre 30 e 32 longas-metragens por ano. Lima demonstrou ceticismo quanto à sustentabilidade desse ritmo após o período obrigatório de cinco anos, comparando com promessas da Disney que não se materializaram após a aquisição da Fox.

A consequência imediata da fusão para os exibidores foi expressa sem rodeios. “É menos um estúdio. É menos uma empresa para se discutir, para ter concorrência e, logicamente, colocar um contra o outro para ter melhores negociações”, disse Lima.

No front regulatório, o fundador da Expocine foi igualmente direto. Considerou “vergonhoso” que o Brasil ainda não tenha legislação para o setor de streaming, avaliando que o calendário eleitoral praticamente elimina qualquer avanço nos próximos meses. “Há forças que não permitem que essa pauta avance e seja finalmente votada”, afirmou, ecoando a frustração de entidades do audiovisual que acompanham o tema há anos.

Em contrapartida, o movimento de novas distribuidoras sugere que o mercado não fica parado. A MGM, adquirida pela Amazon, está abrindo operação de distribuição cinematográfica própria no Brasil. Distribuidoras independentes como Diamond, Paris Filmes e Imagem Filmes foram citadas por Lima como candidatas a ocupar o espaço deixado pelas grandes fusões.

A avaliação final de Lima sobre esse ciclo foi ao mesmo tempo pragmática e aberta. “Fusões acontecem sempre e sempre alguém aparece para concorrer a espaço.” O setor segue em movimento, sem um desfecho definido à vista.

As duas abas seguintes alteram o conteúdo abaixo.
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