Wicked: Parte 2

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Sinopse

Em Wicked: Parte 2, já demonizada como a Bruxa Má do Oeste, Elphaba vive no exílio, enquanto Glinda reside na Cidade Esmeralda. Quando uma multidão furiosa se levanta contra a Bruxa Má, ela precisa se unir com antiga amiga para transformar a si mesma e todo a população de Oz para o bem. Fantasia/Musical. 

Crítica

Foi quase um ano de espera. E a pergunta é: valeu à pena? Controvérsias à parte, a resposta a essa questão é meio que unânime. Afinal, assim como até o mais ferrenho defensor da trilogia O Senhor dos Anéis sabe que Peter Jackson exagerou ao transpor O Hobbit para a tela grande em três longas, ou como qualquer fã se vê obrigado a admitir que os capítulos finais das sagas Harry Potter, Crepúsculo ou Jogos Vorazes não necessitavam terem vindo ao mundo em dípticos, também Wicked teria sido mais bem resolvido em apenas um longa-metragem. Afinal, basta um cálculo simples: se a transposição da obra para o musical nos palcos somava em torno de três horas para a experiência completa, por qual razão essa mesma história exigiria quase cento e vinte minutos a mais no seu formato cinematográfico? Se Wicked: Parte 1 já se mostrava por demais inflado, esse Wicked: Parte 2 é ainda mais repleto de momentos desnecessários. Antes, ao menos, a ideia era acompanhar uma jornada de transformação. Dessa vez, tem-se apenas um punhado de mal-entendidos que uma boa e franca conversa teria evitado sem muitas delongas. Criam-se confusões apenas para que as mesmas possam ser resolvidas logo em seguidas. Os dramas são aqueles percebidos antes. E com pouco de novo a oferecer, eis um resultado que transita entre o tédio e a confirmação das boas ideias anteriormente exploradas, agora revistas em meio a um natural desgaste provocado pela passagem do tempo.

Após ter se passado mais de uma década desde os eventos vistos em Wicked: Parte 1 – explicação apressada e dada sem muita cerimônia – o cenário previsto com a fuga de Elphaba agora está consolidado: ela se tornou persona non grata em Oz, vítima da máquina de propaganda coordenada pelo Mágico e sua principal aliada, madame Morrible. A população local é ainda mais influenciável por fake news e manipulação governamental do que a que habita no lado de cá da tela, e ninguém parece questionar os motivos da “bruxa má do oeste” estar sendo caçada. Quer dizer, alguns permanecem em dúvida. Entre esses, estão Glinda e Fiyero. Ela, no entanto, tem muito a ganhar com o atual status quo ao qual foi elevada, tornando-se conhecida como a “bruxa boa do norte” – mesmo reconhecendo ser incapaz de qualquer tipo de magia. Ele, por sua vez, até permite ser levado pelos acontecimentos ao seu redor, mas só até certo ponto. Quando as agressões e mentiras se tornam por demais escancaradas, se verá obrigado a tomar um lado. Uma decisão que, se por um lado o afastará de um caminho de glórias, ainda que apagado, por outro acabará por direcioná-lo à transformação naquele personagem que para sempre será lembrado.

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Eis, enfim, outra abordagem problemática percebida em Wicked: Parte 2. Assim como a maioria das decisões visam servir de fan service para os admiradores da trama original e das duas protagonistas – Cynthia Erivo (Elphaba), mais reagindo do que propondo, perseguindo uma mesma nota, sem as leves nuances de outrora, e Ariana Grande (Glinda), mais apagada e sem grandes momentos, por mais que se veja alçada a uma liderança que a afasta da coadjuvância de antes – há também uma nítida preocupação em não desagradar os apaixonados pelo clássico O Mágico de Oz (1939), do qual tudo isso se originou. Se antes as interseções entre um e outro eram apenas circunstanciais, mais uma curiosidade do que uma necessidade, agora se apresentam fundamentais para o andar dos acontecimentos. O Espantalho, o Homem de Lata e o Leão Covarde ganham trajetórias próprias que explicam suas existências, enquanto Dorothy se faz tão presente em ações como uma eminência mal disfarçada pela insistência de não revelar sua verdadeira face. Essa indecisão prejudica o aprofundamento da relação entre Glinda e Elphaba, que é a verdadeira razão de ser desse filme. E se antes que os mais apressados digam que as desavenças entre elas se resumem à disputa pelo mesmo namorado, se faz necessário ressaltar que há mais tentando afastá-las do que fazer com que permaneçam unidas. Se no final das contas será essa amizade que determinará o caminho de cada uma, é por demais redutor colocá-las como submissas a um engajamento amoroso.

Não há grandes surpresas a serem contadas. Se o desfecho anunciado lá no começo – a morte da bruxa má e a ascensão da bruxa boa – se revela um anunciado falso apenas para propor uma reviravolta pela qual todos aguardavam, as maneiras como uma e outra encontrarão para driblar esse destino são praticamente tiradas do fundo do chapéu, como num passe de mágica oferecido por um charlatão qualquer. Até esse ponto, porém, Wicked: Parte 2 incorre em mais deslizes, como laços parentais que parecem terem sido tirados de uma novela mexicana, a perda de uma personagem pela qual ninguém parece sentir falta e justificativas tão rasas que beiram o risível (“eu só queria o sapatinho da minha irmã de volta”), não fossem somente constrangedoras. E após tantos (des)apontamentos, ainda resta o mais óbvio: eis um musical do qual nenhum dos números é particularmente marcante. Afirmar que nada visto – ou ouvido – por aqui chega perto do impacto de “Defying Gravity” é como chover no molhado, mas se poderia esperar mais das inéditas “The Girl in the Bubble” e “No Place Like Home”, que pouco fazem além de oferecer um maior destaque às estrelas em cena, da mesma forma como se mostram rapidamente esquecíveis no acender das luzes. E há conclusão pior para algo do gênero do que apresentar canções que, definitivamente, não permanecem na memória? Por outro lado, eis um perfeito reflexo do todo: colorido o bastante para distrair da falta do que dizer, da mesma forma como se confirma genérico em sua própria razão de ser.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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