Crítica

O terror enquanto gênero depende da construção, da ligação que faz com os seus personagens – afinal, é importante que o público tema por eles. De outro modo, a tensão não existe. Mas não são apenas esses os elementos necessários – é imprescindível, ainda, de muita criatividade. Fórmulas para assustar são mais facilmente absorvidas e mapeadas pelo inconsciente do espectador, que as registra a fim de evitar que, em uma próxima vez, se assuste de novo. Diretor de ambas as versões de O Grito (2002 e 2004) – e igualmente de ambas as suas continuações medíocres (2003 e 2006) – Takashi Shimizu é eficiente em criar tensão e em introduzir e configurar os elementos de um bom cenário de horror, ainda que se deixe cair constantemente em clichês.

Iniciando por uma cena que será retomada mais tarde, Voo 7500 logo nos apresenta a uma galeria de personagens estereotipados a bordo de um avião. Estão lá a punk mórbida, o casal em conflito, o babaca egocêntrico, a madame antipática, a donzela em perigo e o cara esperto e taciturno. Shimizu, porém, dá o tempo necessário a cada uma dessas figuras, por mais que isso não faça nenhuma delas mais profunda do que as duas palavras requeridas para descrevê-las. O cineasta entende que é preciso criar empatia primeiro, e mesmo sendo um esforço inútil para o desenvolvimento, o excessivo tempo em tela que gasta com estes tipos acaba tornando suas manias e feições ao menos familiares.

Então acontece uma rápida turbulência e um dos passageiros começa a passar mal a tal ponto que acaba falecendo. Poupando demais explicações, o roteiro de Craig Rosenberg – normalmente um roteirista preguiçoso – começa a explorar as situações que se derivam de um óbito em meio a uma viagem transcontinental. Enquanto isso, coisas inexplicáveis começam a acontecer no avião: um reflexo assustador numa tela, uma névoa desconhecida no banheiro, um passageiro que some. Até que são todos atingidos por uma nova e mais violenta turbulência que desencadeia uma série de ataques pela aeronave. O corpo do passageiro morto desaparece, os comissários de bordo encontram coisas estranhas na sua bagagem e o clima de tensão cresce. O que já seria suficiente, apesar de Shimizu investir em tolos acordes que estouram nas caixas de som toda vez que pretende assustar, um recurso ultrapassado e irritantemente pedestre.

Apesar de unidimensionais, já torcemos por muitos dos personagens e sentimos quando um ou outro tem um destino trágico. Há uma penca de perguntas ainda no ar, como a boneca que encontram e o pequeno jato visto pela janela voando muito próximo ao avião deles. Rosenberg e Shimizu preparam as armadilhas para magnetizar o...

Fim. O filme acaba.

Com pouco mais de uma hora e dez minutos, roteirista e diretor parecem ficar sem ideias e encerram o longa no momento que deveria ser o começo do clímax. Anticlimático e abrupto, o final acarreta também um tom de estupidez que derruba e invalida qualquer mérito anteriormente conquistado. Como uma fileira de dominós, a partir da última cena todo o resto para trás começa a parecer muito obtuso. A “revira-volta” (sério mesmo?) é tão previsível que surpreende justamente pelo fato de descartamos a sua possibilidade, pois acreditarmos que os realizadores não cometeriam tal gafe – ingênuos otimistas. Mas Voo 7500 faz o melhor – não seria o pior? – que pode para decepcionar com um vácuo de ideias que suga qualquer paciência ou inteligência investidas em sua duração – que pelo menos é bem curta.

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Yuri Correa

é formado em Produção Audiovisual pela PUCRS, é crítico e comentarista de cinema - e eventualmente escritor, no blog “Classe de Cinema” (classedecinema.blogspot.com.br). Fascinado por História e consumidor voraz de literatura (incluindo HQ’s!), jornalismo, filmes, seriados e arte em geral.
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