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Sinopse

Século XXVIII. Valerian é um agente viajante do tempo e do espaço que luta ao lado da parceira Laureline, por quem é apaixonado, em defesa da Terra e seus planetas aliados, continuamente atacados por bandidos intergaláticos. Quando chegam à estação Alpha, eles precisarão acabar com uma operação comandada por grandes forças que deseja destruir os sonhos e as vidas dos dezessete milhões de habitantes.

Crítica

Os destroços que caem do céu, anunciando o apocalipse no planeta Mül, são os arautos de uma perturbação grave no universo multiétnico de Valerian e a Cidade dos Mil Planetas. Essa chuva de detritos, responsável por dizimar a população local, interrompe uma existência idílica, ao passo em que serve para deflagrar algo realmente importante ao desenrolar da trama. Os protagonistas, Valerian (Dane DeHaan) e Laureline (Cara Delevingne), são agentes da ordem em Alpha, estação espacial antes permanente na órbita da Terra, mas que, devido ao seu flagrante crescimento, desgarrou-se, passando a constituir um Estado autônomo, a tal cidade dos mil planetas, assim chamada em virtude da quantidade de espécies nela habitantes. Aliás, tal contexto é bem apresentado pelo cineasta Luc Besson na sequência embalada pela icônica Space Oddity, de David Bowie, em que apertos de mão entre diversos povos mostram, de maneira sintética, a evolução da integração das raças interplanetárias.

Já o delineamento inicial dos personagens principais se dá numa missão supostamente corriqueira, precedida por toda sorte de galanteios de Valerian, oficial que tenta convencer sua parceira/imediata a casar-se com ele. Laureline é durona, parece não se sensibilizar com as investidas do superior, embora deixe subentendido um interesse recíproco. Valerian e a Cidade dos Mil Planetas possui um caráter bastante esquemático. Após as estripulias desses jovens aparentemente inconsequentes por cenários que mesclam várias dimensões, chega a vez de estruturar o pano de fundo político. Determinados dados diplomáticos são arremessados em meio ao visual realmente suntuoso da produção, entremeados pelas ordens do comandante do exército terráqueo de Alpha, interpretado caricaturalmente por Clive Owen. O desequilíbrio entre a exploração dos meandros político-sociais e as questões de âmbito puramente pessoais, mais especificamente, o elo do casal encarregado de intervir, enfraquece demais o filme.

Na primeira metade, Valerian e a Cidade dos Mil Planetas ainda se salva por conta da imagem, realmente o grande valor do longa-metragem, e do carisma dos protagonistas. Já na segunda parte, quando o caos prolifera, se intensificam a banalidade e a confusão, esta não necessariamente por conta de pretensos problemas de entendimento. Aliás, bem longe disso. Luc Besson, inclusive, extrapola o aceitável, delegando aos depoimentos de certos personagens o ofício do esclarecimento. Não satisfeito, subsequentemente, insere flashbacks que os ilustram didaticamente, como se duvidasse da capacidade do espectador. É complicado captar o fio da meada, uma vez que o cineasta tenta substanciar todas as esferas, sem para isso investir adequadamente numa construção dramática satisfatória. A abordagem política, até no que concerne aos frágeis paralelos com a realidade, é totalmente preterida em função de meras exibições inócuas da excelência técnica, do que decorre um esvaziamento gradativo.

A presença de Rihana, por exemplo, configura um momento descolado, quase um videoclipe dentro do filme, no qual a cantora mostra sensualidade para depois se tornar apenas dubladora da versão verdadeiramente importante de sua personagem alienígena. Valerian e a Cidade dos Mil Planetas é uma realização grandiloquente, visualmente acachapante, com efeitos especiais dignos dos similares hollywoodianos, um mundo vasto à disposição – ideal para instituir uma nova franquia cinematográfica –, mas combalida pela dificuldade de seu diretor, o experiente Luc Besson, de conferir relevância e espessura aos acontecimentos. Ao invés de trabalhar as pessoas em cena de acordo com as circunstâncias que trazem, em semelhante medida, perigo e esclarecimento, o francês prefere apostar num romance ordinário, tendo como moldura uma severa conspiração galáctica, entendida aqui como simples entrave à possibilidade de casamento, ela, também, mal cultivada no geral.

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é crítico de cinema, membro da ACCRJ (Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro) e da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). Professor da Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ, também leciona ocasionalmente na Academia Internacional de Cinema/RJ.
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