Crítica

O estranhamento não poderia ser maior já no início de Um Cadáver Para Sobreviver. O morto do título, chamado aleatoriamente de Manny (Daniel Radcliffe), aparece numa ilha deserta como salvação para Hank (Paul Dano), um solitário perdido na região que está prestes a se matar. Mas a forma como este milagre surge não poderia ser mais peculiar. O corpo de Manny solta gases a todo instante, servindo como uma espécie de motor que Hank utiliza para fugir da ilha. Sim, um jet ski humano à base de peidos, falando da forma mais clara possível. Porém, a obra dos estreantes Daniel Kwan e Daniel Scheinert não se restringe a flatulências, assim como o cadáver do título tem mil e uma utilidades - como já sugere o título original (homem-canivete suíço, numa tradução livre e literal). Acima de tudo, é uma história sobre solidão e desamor com um toque de surrealismo que talvez só os mais sensíveis consigam apreciar sem julgar o humor servido em conjunto.

A obra é fantástica no sentido estrito da palavra ao mostrar que Hank aceita aquele cadáver com sobrevida de uma forma fácil e sem preconceitos. Enquanto carrega Manny para tudo que é lado em busca de comida e uma saída para a civilização, o personagem vai contando sua história para o morto, numa troca de experiências em que fica muito clara a inversão de papéis. Enquanto Manny quer conhecer tudo que vê e toca, como uma criança descobrindo o mundo, Hank parece ter desistido de viver de verdade, se tornando apenas mais um no mundo que não sabe seu papel – se teria algum. O que os une e faz crescerem juntos nesta busca é o amor. No caso, o do suposto cadáver por Sarah (Mary Elizabeth Winstead), uma jovem que ele colocou como proteção de tela do seu celular (que não sabe a origem, diga-se) e pegava o ônibus todos os dias com ele. E é esta paixão ingênua e pura que parece aquecer a vida de Hank.

Tanto assim o é que, para ajudar o zumbi a relembrar sua vida, seu parceiro acaba recriando cenários como o próprio ônibus já citado e também acaba vestindo trajes e perucas que lembram a garota. A intensidade provocada pelo cadáver é tanta que o amor acaba refletido em Hank, quase gerando um beijo real dos dois. Não como homoerotismo pura e simplesmente, longe disso. Mas talvez uma forma de demonstrar a falta de amor que Hank levou em sua vida, seja pelo pai ditatorial ou pela perda da mãe quando pequeno, o que bloqueou sua forma de expressar sentimentos.

Para tanto, o trabalho da dupla principal é espetacular. Dano e Radcliffe surgem com uma química intensa em cena, além de já estarem imersos totalmente em seus personagens com uma qualidade totalmente crível. O “vivo” pela confusão gerada de seus sentimentos dispersos e personalidade entruncada, com olhares tristes de alguém que precisa urgente de ajuda para se livrar de uma depressão. O cadáver de Radcliffe, então, nem se fala. Com poucos movimentos, seja do corpo ou da própria face, o ator consegue entregar uma das grandes performances do ano passado com seus olhos arregalados e falas arrastadas, transmitindo toda a ingenuidade de um recém-nascido que quer conhecer tudo à sua volta e repassar tudo isto com mensagens extremamente positivas.

A escolha dos diretores e roteiristas para sua decupagem não poderia ser melhor. Entre planos abertos e fechados, fotografia multicolorida e cortes rápidos na montagem, eles entregam uma obra que tem muito a dizer e nem por isso se detém apenas aos diálogos. Eles entendem que a imagem entrega muito da filosofia colocada aqui. Nem flatulências, um pênis ereto que serve como bússola ou uma boca que funciona como lançador de objetos impedem que uma obra original e permeada por um humor que poderia facilmente cair no baixo calão não seja calcada numa visão formidável, divertida e emocionante sobre como ninguém é sozinho no mundo. É sempre preciso parceria para evoluir. Seja de uma paixão, de um verdadeiro amigo ou, simplesmente, de um cadáver que quer voltar à vida.

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é crítico de cinema, apresentador do Espaço Público Cinema exibido nas TVAL-RS e TVE e membro da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. Jornalista e especialista em Cinema Expandido pela PUCRS.
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