Twinless

Crítica


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Sinopse

Em Twinless, Roman, ainda abalado pela morte do irmão gêmeo, encontra no luto uma solidão que parece invencível. Ao se unir a um grupo de apoio para pessoas em situação similar, ele conhece Dennis - culto, irônico, também marcado pela perda - e entre os dois nasce uma amizade. Drama/Comédia.

Crítica

Roman está devastado. A vida inteira contou com o irmão como suporte, conexão, contraponto, apoio. Nunca esteve sozinho, pois, em último caso, havia aquele que era seu até quando todos poderiam lhe deixar. E foi justamente esse que agora não mais está aqui. Rocky morreu atropelado, em um estúpido acidente de trânsito – foi atravessar a rua e, desatento, acabou ficando no caminho de um automóvel que não conseguiu parar a tempo. Mas a dor de Roman é, talvez, maior do que aquela enfrentada por muitos em situação similar. E por um detalhe pequeno, porém fundamental: Rocky era o seu espelho. Os dois haviam dividido tudo, inclusive o útero materno. Uma vez gêmeos, agora não mais. A expressão em português não existe, a que talvez servisse de definição para um ‘ex-gêmeo’. Afinal, seria a melhor interpretação para Twinless, nome do segundo longa escrito, estrelado e dirigido por James Sweeney. E assim como no seu trabalho anterior (Almas Gêmeas, 2019), a temática LGBT+ se faz mais uma vez presente, porém não mais como fio condutor. O que se por um lado se demonstra como um avanço, por outro revela fragilidades na estrutura dramática proposta por um artista ainda em formação.

Apesar das múltiplas funções desempenhadas por Sweeney, ele não é o protagonista de Twinless. Ou, melhor dizendo, talvez seja mais correto afirmar que ele não é o único personagem principal desse filme. Ao menos na primeira metade da trama, quem domina a cena é Roman, interpretado por Dylan O’Brien. E, se ele é aquele que perdeu o irmão gêmeo, está correto afirmar que é o mesmo ator que aparece como Rocky sempre que esse surge em lembranças e flashbacks explicativos sobre o desenrolar de cada episódio, justificando uma ou outra ação dos dois rapazes. Tal escolha gerou um certo burburinho na internet, em redes sociais e sites de fofoca de celebridades, pois O’Brien, em sua versão Rocky, se mostra bem desinibido em postura e atitudes que fazem sentido a um jovem homem gay, galanteador e um tanto emocionalmente irresponsável, ainda mais no que diz respeito ao seu envolvimento com outras possíveis conquistas. As (poucas) cenas de sexo e nudez do astro da saga Maze Runner ou da série Teen Wolf (2011-2017) foram mais do que suficientes para despertar a curiosidade dos fãs mais afoitos, mas vale aqui um alerta: tais passagens são rápidas e pouco relevantes com o enredo em si. Não chegam a ser gratuitas, mas também não se encontram no cerne dos acontecimentos.

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E isso se deve ao fato de grande parte da história se passar entre Roman e Dennis (Sweeney). Os dois se conhecem em uma reunião de um grupo de apoio aos que perderam seus irmãos gêmeos, bem ao estilo de um Alcóolicos Anônimos. Aos poucos começam a compartilhar suas histórias, aprofundando esse sentimento de falta que faz aquela cara metade com a qual se acostumaram uma vida toda, na maior parte das vezes apenas estando presente um para o outro, como fazendo companhia em compras pelo mercado do bairro ou mesmo para assistir à televisão. Seria apenas isso, e provavelmente fosse suficiente, caso o cineasta estivesse interessado em investigar essa dor tão particular. Mas não chega a ser o que se sucede. Afinal, há uma “pegadinha” à espera do espectador, algo que termina por se mostrar reducionista e até mesmo limitador nos desdobramentos, levando o conjunto a um desfecho previsível e frustrante. Sem dar muitos spoilers, basta dizer que um dos dois rapazes está mentindo em relação ao que teria lhe acontecido no passado. O que os uniu, portanto, deixaria de existir, e o próprio contato entre eles não faria mais sentido.

Como superar mais essa puxada de tapete do destino? Se o filme perseguisse esse outro caminho, eis outra possibilidade que provavelmente merecia ser percorrida. Mas James Sweeney demonstra novamente insegurança em assumir riscos e apontar os tipos que reúne a um desfecho inesperado e capaz tanto de desagradar àqueles que buscam zonas de conforto pré-estabelecidas, como também surpreender os que estão atrás de algum tipo de originalidade. Mas esta, infelizmente, parece estar restrita ao uso de qualquer tipo de simetria entre irmãos gêmeos e, principalmente, à falta dessa quando um par pensado para durar para sempre se desfaz por obra do acaso. Em resumo, tudo acaba se reduzindo ao que é fato e o que foi apenas ilusão, que pode ter coerência frente ao quão descartáveis algumas relações amorosas terminam por se confirmar – em especial no contexto LGBT+ – mas pouca permanência encontram diante de problemas mais sérios e transformadores, como a morte de um ente querido e a reconstrução de uma vida não mais em dupla, mas solitária deste ponto em diante. Twinless ganha pontos pela versatilidade de O’Brien, eficiente em compor duas figuras distintas, ainda que próximas, e pela premissa proposta por Sweeney. Poderia ir além, mas resigna-se em ser apenas o que dele se espera.

Filme visto durante o 27o Festival do Rio, em outubro de 2025

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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