Crítica

É pela nostalgia que você está aqui, diz Simon/Sick Boy (Jonny Lee Miller) a Renton (Ewan McGregor) em determinado momento de T2 Trainspotting. O diálogo acaba por sintetizar as razões de ser dessa sequência de Trainspotting: Sem Limites (1996), obra icônica dos anos 1990 que catapultou as carreiras de McGregor e do diretor Danny Boyle. É verdade que o livro de Irvine Welsh que inspirou o filme original tem uma continuação, Porno (2002), que está parcialmente presente nesta narrativa aqui apresentada, mas a maneira como Boyle preenche essa última com referências e rimas visuais evocam muito fortemente certa melancolia em relação aos tempos do longa original, tanto para os personagens quanto para o próprio diretor – todos agora homens de meia idade, saudosos da energia da juventude – revelando mais uma vontade de reviver o passado do que de contar propriamente uma nova história.

E de fato a energia que movia o cinema de Boyle também em outros filmes, como Cova Rasa (1994), Por Uma Vida Menos Ordinária (1997), Extermínio (2002) e mesmo no malfadado A Praia (2000) parece ter se perdido na última década. T2 é uma revisita ao universo de Trainspotting filtrada pelo que o diretor tem feito desde Quem Quer Ser um Milionário? (2008), e, nesse sentido, carregada de um moralismo que não cabia no primeiro filme – que até discutia as consequências dos atos de seus personagens, mas nunca deixava de se divertir ao lado deles. Se Trainspotting ecoava a ironia ácida de Laranja Mecânica (1971), inclusive, por vezes, referenciando diretamente a obra-prima de Stanley Kubrick, T2 parece funcionar quase como o capítulo final do livro de Anthony Burgess, que, com seu gigantesco moralismo, nega toda a trajetória pregressa do personagem Alex, tendo sido, acertadamente, excluído por Kubrick na adaptação cinematográfica.

Essa analogia é quase exata porque talvez o filme de Boyle não chegue a tanto. Ao promover o reencontro entre Renton, agora morador de Amsterdam, em vias de perder o emprego medíocre que possui e em processo de divórcio; Sick Boy, que administra o pub outrora de sua tia enquanto chantageia homens respeitáveis com filmagens clandestinas de encontros armados com sua namorada Veronika (Anjela Nedialkova); Begbie (Robert Carlyle), evadido da prisão buscando retomar a vida de pequenos crimes e se vingar de Renton; e Spud (Ewen Bremner), que agoniza com sua incapacidade de largar o vício em heroína, T2 Trainspotting até abre espaço para a diversão liberta de qualquer amarra, sobretudo nos momentos em que Renton e Sick Boy redescobrem sua amizade com empolgação quase infantil – por isso, contagiante – e passam a planejar formas ilícitas de ganhar dinheiro. Vem daí a melhor cena do filme, aliás, em que os dois tentam assaltar as carteiras dos participantes da celebração da vitória protestante sobre os católicos na Batalha do Boyne (1690) e são forçados a uma situação constrangedora para se safarem.

O problema é que, não muito depois dessa cena, T2 mergulha no peso de um thriller que hipervilaniza Begbie, transformado em algo próximo de um algoz de filme de terror. Está certo que o personagem, de temperamento violento e dado a reações imprevisíveis, era alguém a ser temido desde Trainspotting e que seu ódio por Renton é diegeticamente justificável, mas Boyle e o roteirista John Hodge parecem passar um pouco do ponto aqui, topando um maniqueísmo que opõe Renton, Sick Boy e Spud, vistos como uma estranha família de losers heroicos, ao vilão cruel Begbie – quando o roteiro tenta humanizar esse último, com uma cena deslocada de busca de redenção com seu filho e esposa, é tarde demais, pois a narrativa se encontra à beira do clímax e o espectador já foi colocado completamente contra o sujeito.

Também incomodam em T2 Trainspotting a falta de clareza dos dois principais planos tramados por Renton, Sick Boy e Veronika, que parecem existir na narrativa somente para que alguém seja enganado no final e se estabeleça uma rima com a conclusão do filme anterior; e a falta de inventividade visual do cineasta. Uma das forças motrizes do primeiro Trainspotting, essa energia estética aqui basicamente se resume a alguns ângulos inclinados e luzes coloridas iluminando ambientes sombrios, fazendo de T2, nesse âmbito, uma espécie de versão menos acelerada do insuportável Em Transe (2013). É como se o diretor repetisse, na realização do filme, a primeira ação de Renton em cena: correndo vigorosamente numa esteira, o agora quarentão protagonista é repentinamente atingido pelo peso da idade e sofre um tombo monumental. O cinema de Boyle envelheceu e o universo de Trainspotting parece não caber mais nele. Ainda assim, não deixa de ser prazeroso reencontrar personagens tão queridos ao som de “Lust for life”, de Iggy Pop, e “Born Slippy”, do Underworld. No fim das contas, portanto, é só mesmo na base da nostalgia que T2 consegue funcionar de alguma forma.

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é um historiador que fez do cinema seu maior prazer, estudando temas ligados à Sétima Arte na graduação, no mestrado e no doutorado. Brinca de escrever sobre filmes na internet desde 2003, mantendo seu atual blog, o Crônicas Cinéfilas, desde 2008. Reza, todos os dias, para seus dois deuses: Billy Wilder e Alfred Hitchcock.
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