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Song Sung Blue: Um Sonho a Dois segue dois músicos azarados que decidem unir forças e formar uma animada banda tributo a Neil Diamond. Entre apresentações improváveis e desafios pessoais, eles descobrem que ainda há espaço para o amor, a reinvenção e a realização de antigos sonhos. Biografia/Música.
Crítica
O título original é traduzido logo no começo desse filme como “Cantar com Melancolia”, e essa é uma adaptação que se encaixa com precisão às histórias de Mike e Claire Sardina. Os dois, eternamente tomados pela música, levaram suas vidas de bar em bar, prontos para subir em qualquer palco que lhes abrisse as portas: seja um restaurante, cassino ou feira de atrações. Porém, mais do que aquilo que alcançaram sob os holofotes, foram os desafios, quedas e recuperações que levaram adiante em suas realidades privadas que merecem o destaque que não apenas um, mas dois filmes tentaram lhes fazer jus. Song Sung Blue: Um Sonho a Dois, de Craig Brewer, é sim inspirado na história real deste casal, mas teve como ponto de partida o documentário homônimo (Song Sung Blue, 2008) que primeiro se encarregou de tal registro. Algo tão inacreditável e surpreendente que talvez a ficção não fosse capaz de abraçar a contento. É uma fantasia, mas com um pé fincado na realidade para que assim possa ser visto não como absurdo, mas que de fato tenha ocorrido.

Brewer, não apenas diretor, mas também roteirista deste projeto, se tornou conhecido com o oscarizado Ritmo de um Sonho (2005), tendo posteriormente comandado o remake de Footloose (2011) e levado adiante duas parcerias com Eddie Murphy, o bem-sucedido Meu Nome é Dolemite (2019) e o aquém das expectativas Um Príncipe em Nova York 2 (2021). Como se percebe, trata-se de um cineasta de altos e baixos. Com Song Sung Blue: Um Sonho a Dois, trata de não reinventar a roda, ocupando-se apenas de contar uma história de forma competente, saindo do caminho, quando necessário, para que seus protagonistas possam brilhar em suas escolhas. Há uma opção clara do realizador em levar sua narrativa tal qual um conto de fadas que, inevitavelmente, acaba dando terrivelmente errado. Mas devido a azares do acaso e não por temperamentos instáveis, comportamentos condenáveis ou violências geracionais.
Os personagens são todos desenhados em suas superfícies, movidos por motivações bastante básicas. O homem quer ser reconhecido por seu talento, a mulher quer cantar, casar e cuidar de um jardim florido, a primogênita anseia por estabilidade familiar, enquanto que o caçula tem como preocupação apenas se divertir enquanto registra os movimentos dos outros. Até mesmo figuras coadjuvantes que se fazem presentes parecem desprovidas de segundas intenções: o empresário busca apenas seus dez dólares de comissão, o produtor se demonstra frustrado quando as coisas não saem com o prometido – mais por não ter agido de acordo com o que esperavam dele, e menos por quaisquer tipo de ambições pessoais que possa ter – e colegas que se encontram na mesma luta – ou seja, que poderiam ser visto como concorrentes – se mostram mais adeptos ao afeto coletivo do que guiados por possibilidades de ganho pessoal. É tudo por demais edulcorado, amenizado, sempre como se o copo estivesse meio cheio, e nunca meio vazio.
Diante das imensas tragédias que o casal terá pela frente, é possível que a decisão de diminuir qualquer outro eventual empecilho tenha sido consciente, para que algo menor não roubasse as atenções daquilo que por si só já serviria como catalizador das emoções. Para isso, conta muito o entrosamento efervescente que se percebe entre os tipos interpretados por Hugh Jackman e Kate Hudson. Ele é conhecido por ser admirador do teatro musical, tendo aparecido no cinema já em duas produções do gênero. Ela, por sua vez, não apenas deixa claro ter herdado da mãe uma voz e um carisma de artista, como tem flertado, de tempos em tempos, com obras que trazem a música em seus âmagos, como Quase Famosos (2000) ou Music (2021). Agora, pela primeira vez, ela de fato canta – e perdoado o clichê, pode-se afirmar que também encanta. Há sintonia entre eles, tanto nas apresentações musicais, como também nos momentos de intimidade. O apoio que demonstram entre os sorrisos diante de multidões será o mesmo que os salvarão – na medida do possível – frente aos mais graves acidentes.

Mike Sardina tinha em Neil Diamond um ídolo. Claire Stingl, depois também Sardina, fazia as vezes de Patsy Cline com desenvoltura e graciosidade. Juntos, formaram a dupla Lightning & Thunder (Raio e Trovão, em tradução direta). De começo tímido, comoveram multidões e chamaram atenção de gente grande, como o Pearl Jam. Mas Song Sung Blue: Um Sonho a Dois não é um filme sobre uma dupla cover que quase deu certo, sem nunca ter, de fato, chegado lá. Ou é também sobre isso, mas disposto a ir além. E muito se deve às ambições de Jackman e Hudson, também eles em processo de reinvenção em suas carreiras, não mais o galã e a estrela da juventude, mas ainda com muito a oferecer em suas presenças cênicas. Assim, o espectador é convidado a compartilhar de uma jornada de alegrias e dores. E aos mais astutos, diferentes camadas de leitura se mostrarão ao alcance. Exemplos que talvez não perdurem na memória, mas que aí estão para mostrar que, em alguns casos, desistir simplesmente não é uma opção. Por mais que todos os indícios apontem na direção oposta.
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