Sombras no Deserto

Crítica


5

Leitores


1 voto 8

Onde Assistir

Sinopse

Em Sombras no Deserto, ambientado no Egito antigo, uma família vive escondida, tentando escapar de um passado que não pode ser revelado. O carpinteiro, sua esposa e o menino sobrevivem entre a fé e o medo de serem encontrados. Quando uma presença sombria cruza seu caminho, o menino começa a questionar tudo o que acredita. Horror.

Crítica

Há um esforço um tanto tolo de se disfarçar o óbvio em Sombras no Deserto. Os personagens em nenhum momento – salva uma rara exceção, já próximo ao desfecho da trama – se referem uns aos outros pelo nome próprio, como se isso fosse capaz de ludibriar a atenção do espectador. Tem-se a mãe, o pai… e o menino. Mas não são necessários muitos minutos de história para que se reconheça estarem ali representações de Maria, José e… Jesus. Deixando essa brincadeira descartável de lado, no entanto, o que se percebe é uma tentativa interessante de se apropriar de um conto universal por meio de uma abordagem pouco explorada – e, por outras tantas vezes, forçosamente esquecida. O que o diretor e roteirista egípcio Lotfy Nathan apresenta é algo que poderia ser visto como uma imaginação a respeito daquilo que geralmente é deixado de lado. Fala-se muito sobre o nascimento do Filho de Deus e também sobre os seus anos finais enquanto homem no plano terreno. Porém, quem ele foi, como se comportou e quais as incertezas e fraquezas que viveu e experimentou entre um ponto e outro? Alguns já exploraram esse terreno por meio da comédia, a maioria fez uso do drama. Dessa vez, a chave usada é a do terror. Uma decisão que parece fazer sentido no começo, mesmo que nem sempre funcione de acordo com o esperado.

Afinal, o título original é suficiente para entregar muito do que se verá em cena: The Carpenter’s Son, ou seja, O Filho do Carpinteiro. O profissional apontado no batismo é interpretado por Nicolas Cage, obviamente com idade avançada para o papel, mas ainda com poder suficiente em Hollywood para pegar para si um personagem como esse. Tê-lo como um dos produtores deve ter sido decisivo para que o projeto se tornasse concreto. Mas o destaque em cena é Noah Jupe, que deixou para trás os anos como criança e se mostra um adolescente com postura e concentração suficiente para lidar até com uma figura tão complexa como essa que aqui tem em mãos. É ele quem deverá trazer à tona a rebeldia e a insatisfação de um rapaz que ainda não entende bem sua missão no mundo, está cansado de viver escondido e duvida até mesmo daquele que afirma ser seu pai. “De quem sou filho?”, questiona com energia à mãe, enquanto essa permanece muda, insistindo na mesma resposta que vem repetindo há anos apenas algum tempo depois. “Você mente, minha mãe”, rebate o garoto, sem raiva nem tristeza, apenas constatando uma verdade incapaz de ser escondida.

20251115 sombras no deserto papo de cinema

O apelo ao cinema de gênero vem por meio de uma citação apontada até mesmo nos escritos bíblicos. É sabido que Satanás, o anjo caído, teria tentado Jesus por diversas formas e maneiras até que esse escutasse o chamado do Pai Eterno e assumisse de vez sua missão. Pois bem, o diabo aqui não se manifesta com muitas caras. Quem assume essa função é Isla Johnston (O Gambito da Rainha, 2020), identificada apenas pela alcunha de A Estranha. É ela quem aparecerá quando ele menos espera, sempre levando-o a agir contra seus instinto, com provocações maldosas, sugestões distorcidas e desafios pensados para testar sua índole. Enquanto isso, pai e mãe (essa vivida pela cantora FKA Twigs, vista antes em O Corvo, 2024) procuram se manter atentos. Ela às fragilidades do filho, ele aos tropeços que se recusa a perdoar. A composição oferecida aos dois é por demais maniqueísta. Enquanto a mulher é apenas carinho e compreensão, o homem está constantemente com medo, munido de reclamações e gritos de alerta. Quando o mal enfim deles se aproximar, pouca diferença fará o modo como se comportam. A força de um deverá ser suficiente para todos.

E é essa a percepção que Lotfy Nathan falha em alcançar. O Jesus que oferece é um misto de criança mimada com gênio incompreendido. Quem acaba cedendo a pior das tentações é o próprio cineasta, que termina por fazer de seu protagonista um ser sobrenatural, com poderes além daqueles já imaginados. Tudo bem ele conseguir curar um homem leproso ou ressuscitar um gafanhoto, mas matar um oponente apenas com o olhar é um pouco demais. Enfim, mais um a ceder ao canto dos super-heróis, como se apenas personagens capazes de soluções fantasiosas fossem passíveis de compreensão pelo público de hoje. Longe da profundidade que Martin Scorsese demonstrou em A Última Tentação de Cristo (1988) ou mesmo sem conseguir propor a dualidade interpretativa que Ewan McGregor exibiu em Últimos Dias no Deserto (2015), tudo o que Sombras no Deserto tem a oferecer é uma premissa curiosa e até ponto munida de subsídios que acaba por se perder em escolhas fáceis e um contexto imediato que falha em ir além da superfície de um discurso pouco inspirado. Mesmo com tanto a ser dito, opta-se por retificar o que a imagem deveria ser capaz de atestar. E assim desperdiça-se uma oportunidade rara, por mais que essa tenha como origem uma motivação válida.

PAPO DE CINEMA NO YOUTUBE

E que tal dar uma conferida no nosso canal? Assim, você não perde nenhuma discussão sobre novos filmes, clássicos, séries e festivais!

As duas abas seguintes alteram o conteúdo abaixo.
avatar
é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
avatar

Últimos artigos deRobledo Milani (Ver Tudo)

Grade crítica

CríticoNota
Robledo Milani
5
Alysson Oliveira
3
MÉDIA
4

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *