Crítica

Se Beber Não Case (2009), o primeiro filme da trilogia, foi um sucesso gigantesco principalmente por ter sido inesperado. O roteiro funcionava, com uma sacada original e bem armada, conduzido por um trio de atores que possuíam química juntos. A continuação, que veio dois anos depois, investiu na máxima de que “time que está ganhando não se mexe”. Ou seja, é quase um remake do primeiro, com apenas algumas eventuais mudanças de cenário e no elenco coadjuvante. A proposta até funcionou junto ao público, mas foi massacrada pela crítica. Sinal de que seguir no mesmo caminho não era mais uma opção. Se faziam necessárias mudanças, e é justamente o que acontece em Se Beber Não Case! Parte III. O problema é que mudou-se justamente o que funcionava, permanecendo igual o descartável.

O título original é The Hangover, ou seja, A Ressaca. Já o batismo no Brasil virou o inacreditável Se Beber Não Case. Pois então, este terceiro episódio não apresenta bebedeira, ressaca e muito menos casamento (bom, até tem um, mas sem a menor relevância no enredo). Os problemas já começam aqui: nada do que é anunciado se cumpre. O bacana das duas aventuras iniciais era justamente ir descobrindo, junto com os personagens, o que eles haviam feito na noite anterior e da qual não possuíam a menor recordação. Isso é substituído aqui por uma missão desesperada em busca do Sr. Chow (Ken Jeong), cujos atos ilegais do passado colocou todos em perigo no presente. Há um novo mafioso no pedaço (John Goodman, cada vez mais onipresente), que promete acabar com a vida de Doug (Justin Bartha, novamente sem participar da ação) caso o trio formado por Phil (Bradley Cooper), Stu (Ed Helms) e Alan (Zach Galifianakis) não encontre Chow.

Se Beber Não Case! Parte III está bem conectado com o que foi mostrado anteriormente nos dois primeiros filmes. Personagens antigos reaparecem (a prostituta vivida por Heather Graham, dessa vez num modelo bem mais comportado, e seu filho, o bebê de óculos escuros, ambos em participação ligeira), Chow precisa escapar da prisão na Tailândia (onde foi deixado em Se Beber Não Case! Parte II, 2011) e Las Vegas mais uma vez é palco das maiores trapalhadas cometidas pelo ‘bando de lobos’. Porém se trata muito mais de um filme de aventura, com alguns (poucos) momentos engraçados, do que de uma comédia eletrizante e repleta de surpresas, que é o que todos esperam.

Alan, o tipo mais sem noção, continua hilário na interpretação de Galifianakis, mas até a anunciada crise do personagem não chega a ser concretizada, e ele pouco destaque individual recebe durante a trama. É curioso perceber que Phil, o galã vivido por Bradley Cooper – em seu primeiro papel após a indicação ao Oscar por O Lado Bom da Vida (2012) – é atraente e obviamente o líder do grupo, mas o mais sem função, praticamente não existindo afastado dos demais: para ele não há envolvimento romântico, não há perigo eminente, nada a ganhar nem a perder. É difícil se conectar com ele, portanto. E Stu (Ed Helms) continua responsável pelas revelações mais inesperadas (a sequência durante os créditos finais é de chocar qualquer um). Outros acréscimos, no entanto, que deveriam colaborar no alívio cômico, como a participação de Melissa McCarthy e do próprio Goodman, acabam sendo desperdiçadas em contextos sem maior interesse.

Caso fosse um filme qualquer, sem a mínima expectativa, era bem possível que Se Beber Não Case! Parte III funcionasse à contento. Infelizmente, esta recepção não lhe é possível. Esperava-se muito desta sequência final, e é perceptível a frustração ao término da projeção. Há momentos engraçados, outros bastante movimentados, mas nada memorável ou absurdo como já visto antes na série. O diretor Todd Phillips, assim como seus protagonistas, parecem cansados de suas criações, e os abandonam sem muito cuidado ou carinho. Realmente, dessa vez tudo termina, como anunciado nos trailers e cartazes. E pelo que é visto ninguém deverá sentir saudades tão cedo.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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