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Sinopse

Getúlio é um sargento rude incumbido de levar à Aracaju um prisioneiro inimigo político de seu chefe. No meio do caminho, por conta de uma mudança drástica no cenário político, Getúlio é ordenado a soltar o prisioneiro.

Crítica

Baseado na obra de João Ubaldo Ribeiro, Sargento Getúlio é um tour de force de Lima Duarte, interpretando o papel-título. Acompanhamos a trajetória do personagem, seus pensamentos, suas angústias e agruras durante uma missão a qual ele não esperava ser tão difícil em um verdadeiro faroeste nordestino. Por sua performance, o ator recebeu diversos prêmios, dentre eles o de Melhor Ator nos Festivais de Gramado e de Havana, em 1983. O próprio filme também sagrou-se grande vencedor da festa do cinema da Serra Gaúcha e, por isso, 30 anos depois, ganha uma merecida homenagem durante a 41ª edição do Festival.

Com direção de Hermano Penna e roteiro do próprio, ao lado de Flávio Porto e do autor da obra original, Sargento Getúlio conta a história do personagem que dá nome ao filme, um sujeito que recebe a incumbência de levar um prisioneiro, desafeto político de seu chefe, do pequeno povoado de Paulo Afonso, na Bahia, para a capital do Sergipe, Aracaju. Getúlio embarca na viagem ao lado de seu amigo Amaro (Orlando Vieira), mas no meio do caminho, descobre que as ordens mudaram e que o destino daquele refém não poderá ser o mesmo. Não acreditando nesta contraordem, Getúlio resolve levar à cabo sua missão, nem que para isso morra tentando.

O que chama a atenção logo de cara em Sargento Getúlio é a força do texto de João Ubaldo Ribeiro. Trazendo um pouco do fluxo de consciência que o autor emprega em sua obra original, Hermano Penna consegue nos colocar dentro da cabeça do protagonista, nos mostrando a divisão que aquele homem vive entre cumprir suas obrigações ou manter-se a salvo e bem. Lima Duarte tem ótimas falas e, vez que outra, consegue fazer rir pelo absurdo de seu jeito de ser. O ator é, sem sombra de dúvidas, o grande destaque do longa-metragem. Carregando nas costas o filme e aparecendo em cada uma das cenas dos seus rápidos 85 minutos de duração, Lima Duarte convence como um sujeito perigoso, que não leva desaforo para casa – chegando ao cúmulo de decapitar um inimigo por lhe ter faltado com o respeito. Acompanhamos a espiral de desespero do personagem e todas as suas dúvidas para com o momento em que vive. O ator, que havia ganhado a atenção do Brasil depois de ter interpretado Zeca Diabo em O Bem Amado, volta ao papel do matador profissional, mas sem os maneirismos na voz que o tornaram famoso. Aqui, Lima Duarte parece não utilizar bengalas.

Outros nomes do elenco, como Orlando Vieira como o fiel Amaro e, principalmente, Flávio Porto como o impagável padre, surgem como ótimos coadjuvantes, fazendo dobradinhas formidáveis com o protagonista. O padre é um caso a parte, visto que tem um código de honra bastante pessoal, não se restringindo apenas a seguir a Bíblia. Tentando aconselhar Getúlio no caminho mais correto, mas sem largar sua carabina, o padre é um dos personagens mais curiosos de todo o longa. Cabe ressaltar a montagem competente de Laércio Silva, que inclui alguns flashbacks e elipses sem nunca perder o cerne da história. O único porém do corte final é a presença maciça da narração, que por vezes acaba soando redundante ou literária demais. Excetuando-se isso e alguns problemas na dublagem de certos trechos – a voz da “mocinha” do filme não poderia ser mais falsa e fora de lugar, a experiência de assistir a Sargento Getúlio é bastante positiva.

É salutar que o Festival de Cinema de Gramado, em sua 41ª edição, relembre um de seus vencedores do passado e coloque luz novamente em um trabalho tão interessante quanto este longa-metragem dirigido por Hermanno Penna. Incompreensível é a ausência de qualquer exibição de Sargento Getúlio durante o Festival. Não sabemos os motivos da ausência do filme, mas seria no mínimo coerente que este pudesse encontrar um novo público no local onde se consagrou há 30 anos. Um prêmio tão importante quanto o Troféu Cidade Gramado, louro que a produção recebe em 2013 na cidade gaúcha.

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é crítico de cinema, membro da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. Jornalista, produz e apresenta o programa de cinema Moviola, transmitido pela Rádio Unisinos FM 103.3. É também editor do blog Paradoxo.
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