Crítica

Quem disse que cinema é arte? Ele pode, e deve, vez que outra, ser um bom negócio. E Relação Explosiva é justamente isso – uma aposta que deu certo. É importante destacar que essa avaliação leva em conta apenas aspectos financeiros. Afinal, essa produção totalmente independente custou meros US$ 2 milhões (o longa brasileiro Gonzaga: De Pai para Filho, 2012, custou mais do que isso) e arrecadou somente nas bilheterias norte-americanas quase US$ 14 milhões – ou seja, um lucro de aproximadamente sete vezes o valor do seu investimento! Poucas opções atuais oferecem um retorno tão satisfatório quanto esse. Mas, após as contas serem fechadas e todo mundo estar com o bolso cheio, será que sobra alguma coisa? Provavelmente, não.

Escrito, co-dirigido e estrelado por Dax Shepard – o mesmo do insuportável Casamento em Dose Dupla (2008), em que fazia par com Liv TylerRelação Explosiva é o que se pode chamar de ação entre amigos. Praticamente todos os presentes, na frente e atrás das câmeras, já haviam trabalhado juntos ao menos uma vez. Dax é o protagonista, ao lado de Kristen Bell (Burlesque, 2010), sua namorada também na vida real. David Palmer, o outro diretor, havia trabalhado lado a lado com Shepard no projeto anterior do ator, Brother’s Justice (2010), que felizmente não teve igual retorno do público. Mesmo o nome mais conhecido do elenco, Bradley Cooper, pode ser considerado hoje um astro após os sucessos Se Beber Não Case (2009) e Esquadrão Classe A (2010), mas antes disso fez parte dessa turma em outras ocasiões. E se o clima leve e descontraído funcionou durante as filmagens, infelizmente não transparece na tela, e a impressão que se tem é que foi muito mais divertido fazer o filme do que vê-lo.

Annie (Bell) recebeu uma ótima proposta de trabalho. O único porém é que para aceitar teria que se mudar para Los Angeles. Seu namorado, Charles (Shepard), decide acompanhá-la na mudança. Mas ele se encontra no programa de proteção à testemunha, e o oficial de justiça (Tom Arnold) que deveria protegê-lo vai ao seu encalço. O mesmo faz Gil (Michael Rosenbaum), ex-namorado da garota, que desconfia das intenções do misterioso galã que tomou seu lugar. Ainda durante a viagem, Alex (Cooper), o bandido que está atrás de Charles, descobre o paradeiro dele e sai, também, a procura do antigo desafeto. Soma-se a isso uma ex-noiva enfurecida, um policial gay, um pai rancoroso, um caipira de olho no carro raro dos mocinhos e uma turma de velhinhos curtindo uma simpática suruba e tem-se uma ideia do que Relação Explosiva poderia ter sido, mas não chega nem perto.

O maior problema do filme é a reciclagem sem sentido de velhas piadas e reviravoltas há muito manjadas, seus personagens rasos e caricatos, a direção pouco inspirada que se preocupa mais com as perseguições e os carros possantes (a maioria de posse do próprio protagonista) e o argumento que nunca chega a convencer por completo. O cara estava há um ano sendo escondido por um policial incompetente, os vilões estão mais magoados com a traição do amigo do que em busca de vingança, o mocinho mente do início ao fim mas a ele tudo é perdoado. Enquanto isso nos resta a trilha sonora, que apesar de ter custado cerca de 50% do orçamento total do projeto, nem chega a ser tão marcante, pois também requenta antigos sucessos dispondo-os ao acaso, sem uma lógica coerente. Uma observação apropriada para todo o conjunto, uma obra em que pouco se aproveita – a não ser, é claro, se ao invés de ter pago para assisti-la você foi um dos poucos que ganhou com essa vazia existência.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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