Crítica
Leitores
Onde Assistir
Sinopse
Em Querido Trópico, Ana María é uma imigrante colombiana que consegue emprego como cuidadora na Cidade do Panamá. Ela fica responsável por Mercedes, uma mulher de classe alta que luta contra a evolução da demência que lentamente apaga a sua identidade. Conforme suas vidas se entrelaçam, as duas embarcam em uma jornada de descobertas e apoio mútuo. Filme estrelado por Paulina Garcia.
Crítica
A proposta não chega a ser particularmente inovadora. Portanto, importante estar ciente diante de Querido Trópico que este é um filme no qual a jornada deverá concentrar mais atenção do que o destino ao qual se encaminha. Afinal, esse é de fácil antecipação. Mas o trajeto percorrido até lá é que irá permanecer. Sem atropelos, a realizadora colombiana Ana Endara Mislov se propõe a conquistar o espectador por meio da história de duas mulheres de origens e propósitos distintos que, de uma hora para outra, se veem dependendo uma da outra. Irão se estranhar de início, é fato, e o processo de entendimento e reconhecimento de suas fragilidades e pontos fortes é que farão se encontrar e, mais do que isso, buscar por uma empatia capaz de elevar um relacionamento destinado ao fracasso a uma necessidade mútua e compartilhada. Enfim, eis um pequeno relato sobre a força da observação, sobre ser capaz ou não de enxergar o próximo e nele vislumbrar a si mesmo, por meio de paralelos óbvios e desdobramentos capazes de serem compreendidos somente após muita reflexão. Tanto na ficção, como entre a audiência.
O título pode enganar o espectador mais desatento. Porém, uma das principais imagens de divulgação do filme já desfaz esse mal-entendido, apontando para o jogo de palavras exposto no batismo. O guarda-chuva afasta qualquer ideia de paraíso constante. Mislov deixou seu país natal e mudou-se para o Panamá quando adulta, e lá construiu sua carreira como cineasta. É este, portanto, o cenário onde se ambienta uma história sobre pequenos gestos e grandes transformações no mundo de uma, quiçá duas pessoas. Um passo de cada vez. Num lugar que muitos se veem somente de passagem, outros tantos percebem apenas como ponto turístico, essas personagens escolheram dele fazer seu lar, e abrir mão do que se tinha em nome de uma ambição maior faz parte desse processo. Entre a que pouco tem e a que está prestes a dar adeus a tudo que reconhece, não por vontade própria, mas por imposição do acaso, se colocar na guarda daquela ao seu lado será o último refúgio disponível. Não apenas por razões de segurança, mas também pela direta vontade de se manterem vivas.

Ana Maria precisa de um emprego. A barriga que lhe causa constrangimento, sempre tentando escondê-la sem sucesso com as mãos, denuncia uma condição da qual se vê tendo que lidar sozinha. Mais do que isso, é se de se perguntar o quanto desse momento é sua responsabilidade, se reflexo de uma tolice amorosa ou consequência de um quadro mais grave. Enquanto busca encontrar sua razão pessoal, se depara com Jimena e uma proposta que parece se encaixar no seu potencial de ação. Essa a convida para trabalhar como cuidadora da mãe já idosa e que começa a demonstrar os primeiros sinais de demência. A doença é impiedosa e nada pode impedi-la, no máximo retardá-la. A presença da criada, portanto, será de proporcionar conforto a alguém que muito já teve, mas está gradualmente dessa realidade se despedindo. Mercedes é altiva, não aceita o que lhe espera, e reage com contrariedade diante daquela mulher que nada mais é do que a confirmação de uma debilidade destruidora. Confiar nela é também abrir mão de si. Como esse jogo de confianças e mentiras poderá se sustentar e ir além de meros truques e pirraças? Assim como a água sempre encontra o caminho, também essas duas descobrirão serem mais parecidas e carentes de companhia do que um primeiro contato poderia ter deixado transparecer.
Se a panamenha Jenny Navarrete faz de sua Ana Maria uma caixa de surpresas sempre pronta a revelar uma nova intenção, manejando com cuidado cada conquista e estudando de forma atenta o que está a sua disposição antes de cada passo a ser dado, há de se preparar o espectador para a performance complexa e delicada oferecida pela chilena Paulina García. Essa faz de Mercedes uma figura capaz de despertar paixões e repulsa, muitas vezes numa mesma sequência, reforçando as múltiplas camadas das quais sua personalidade faz uso em uma composição fina e precisa. Querido Trópico tem seus pilares muito bem equilibrados nestas duas performances capazes de desviar de algumas das mais óbvias soluções impostas pelo roteiro ao mesmo tempo em que, aparentando esforço algum – um dos seus maiores méritos – alcança notas altas que vão além do que um conjunto como esse poderia apontar. Um biscoito delicado, a ser saboreado sem pressa, nem gula. E por isso mesmo, capaz de recompensar essa dedicação, mostrando que mesmo com pouco ao alcance se é capaz de fazer funcionar a mais básica das receitas.
Últimos artigos deRobledo Milani (Ver Tudo)
- Agentes Muito Especiais - 8 de janeiro de 2026
- Família de Aluguel - 8 de janeiro de 2026
- Anaconda - 7 de janeiro de 2026
Grade crítica
| Crítico | Nota |
|---|---|
| Robledo Milani | 7 |
| Chico Fireman | 6 |
| Alysson Oliveira | 6 |
| Monica Kanitz | 7 |
| MÉDIA | 6.5 |

Deixe um comentário