Crítica

Mistura da trilogia Jesse-Celine, de Richard Linklater, – Antes do Amanhecer (1995), Antes do Pôr do Sol (2004) e Antes da Meia-Noite (2013) – com um punhado de contos de horror cósmico de H.P. Lovecraft, Primavera, segundo longa-metragem da dupla Justin Benson e Aaron Moorhead, combina o charme de um romance indie a imagens grotescas e a uma mitologia promissora, ainda que um tanto rasa. Após a morte de sua mãe, o jovem norte-americano Evan (Lou Taylor Pucci) resolve viajar à Europa para uma mudança de ares. Ao visitar uma cidadezinha italiana, ele conhece Louise (Nadia Hilker), bela e misteriosa mulher com quem inicia um relacionamento. A garota, entretanto, tem segredos que estão, literalmente, além da compreensão do rapaz.

Esse casamento de diferentes gêneros é um dos aspectos mais chamativos do filme, mas, infelizmente, o roteiro nem sempre consegue unir elementos de cada um deles sem deixar aparentes as "costuras" da narrativa. O primeiro ato dedica muito tempo à construção do personagem de Evan, o que é ótimo, mas a demora à introdução do componente sobrenatural transforma numa reviravolta algo que, na verdade, é parte da premissa. O resultado é um bom estudo de personagem e uma exploração envolvente do relacionamento de um casal; a parte mais fantasiosa, porém, acaba não conseguindo encontrar muito espaço no enredo.

Há, entretanto, grande potencial no flerte desta obra com o realismo mágico – embora Louise insista que o que chamamos de sobrenatural é apenas biologia que ainda não conseguimos compreender. A fluidez dos diálogos e a química entre os dois atores principais conseguem representar muito bem a crescente intimidade entre os personagens, ao ponto de conferir certa naturalidade a conversas que normalmente soariam dolorosamente expositivas (particularmente os monólogos de Louise sobre a natureza de sua condição e o absurdo conjunto de regras que a acompanha).

É difícil não questionar, também, a escolha de manter o foco em Evan e na maneira como ele reage a toda a situação, considerando que Louise é, evidentemente, uma figura com muito mais material a ser explorado: ela é, afinal, uma criatura imortal, com 2000 anos de idade. Apesar de brincar com temas filosóficos, familiares aos fãs de histórias modernas de vampiros, como a subversão da ideia da imortalidade tornada maldição (Louise demonstra estar extremamente confortável com a eternidade), o desfecho prova que Primavera permanece mais fiel ao romance que ao horror ou à ficção científica.

Benson e Moorhead ganham pontos, no entanto, por conduzir uma obra na qual a originalidade e as boas performances compensam o baixo orçamento. Talvez este filme fosse mais eficiente se tivesse um período de gestação mais longo, necessário para amadurecer as ótimas e ambiciosas ideias de seus realizadores; de qualquer maneira, Primavera ainda funciona, e muito bem, como uma narrativa envolvente e corajosa, centrada em dois personagens bastante carismáticos.

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cursa Jornalismo na Universidade Presbiteriana Mackenzie em São Paulo e é editora do blog Cine Brasil.
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