Crítica


8

Leitores


2 votos 10

Sinopse

​Gloria é ascensorista na UERJ. Ela foi criada e vive até hoje no Morro da Providência. Filha de um pai abusivo, quando se vê livre dele, passa para as mãos de um irmão, chefe do tráfico, que ainda se faz presente e exerce enorme influência sobre sua vida, mesmo estando preso. Camila é uma jovem psicanalista portuguesa que está no Brasil para estudos de pós-graduação sobre violência também na UERJ, onde começa a atender Gloria em seu consultório. É estrangeira e deslocada em meio ao caos de uma cidade desigual, ruidosa, hostil e em constante transformação. Um vínculo entre elas se inicia.​

Crítica

O cinema de Lúcia Murat é assumidamente feminino. Desde Que Bom Te Ver Viva (1989) – premiado no Festival de Brasília – ela tem demonstrado um interesse em particular para falar da presença feminina nas telas. Isso não quer dizer que seja exclusivamente feminista, cega em relação aos demais problemas nacionais – a política (Doces Poderes, 1997), a questão indígena (Brava Gente Brasileira, 2000), e a repressão da ditadura militar (A Memória que me Contam, 2012), por exemplo, também despertam seu interesse. Invariavelmente, porém, partindo do olhar da mulher. Porém, há uma outra característica recorrente em sua filmografia, essa mais subliminar e perene: o viés memorialista, envolto por lembranças e recordações, levantando a necessidade de superar traumas do passado para viver o presente e encarar o futuro. Uma urgência cada vez maior, que se faz presente de modo imperativo em Praça Paris, mais uma obra concisa que se encaixa sem tropeços ao conjunto de trabalho da realizadora.

Gloria (a revelação Grace Passô) é ascensorista na Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Pelo seu elevador passam dezenas de pessoas todos dias, aos quais ela é quase invisível. E é assim, também, que ela as percebe. Sua postura, no entanto, vai além, e reflete uma maneira de lidar com o mundo. De infância sofrida, nunca entendeu a mãe ter abandonado a ela e o irmão, deixando-os à mercê do pai abusador. Isso ficamos sabendo não por termos acompanhado ao lado da protagonista essa dura jornada, mas por presenciar seu relato à Camila (Joana de Verona), psicanalista portuguesa que está no Brasil para sua pós-graduação. O contato entre as duas começa por uma questão protocolar: uma por questão de currículo, outra pela oferta tão próxima que lhe é apresentada. Porém, aos poucos, os laços entre elas irão além da mera postura profissional.

É interessante perceber como Murat irá, sem pressa ou atropelos, desenvolver a relação entre estas duas mulheres. Cada uma é dona da sua própria verdade, ainda que aquela que se apresenta como mais preparada não tenha ciência disso, enquanto que a outra, que apenas supõe essa condição, termina por demonstrar um completo domínio entre o que e quando revelar. Gloria tem muito a dizer, e estes encontros, mais do que uma com a outra, servem para que possa, enfim, começar a se ver por completo. O drama da convivência com o pai, o irmão que até hoje exerce uma influência exagerada sobre ela, e até como lida com a atração e interesse de outros são questões que merecem ser debatidas e reinventadas. Acima de tudo, ela tem um segredo, há um mistério na origem da mulher que é hoje, que tanto pode ser um feito como uma maldição. Tudo depende de como irá lidar com esse fato a partir do momento em que ele deixar de ser uma negação, para se tornar parte dela.

Camila, por outro lado, carrega a herança portuguesa. Chega ao Rio de Janeiro para crescer, evoluir e, provavelmente, ir embora depois. Tal qual seus antepassados. Porém, da mesma forma que estes, também não está preparada para o que aqui irá encontrar. Depara-se com outra sociedade, percebe aos poucos a dificuldade de dialogar com outros códigos, vê-se cercada e limitada, mais por si do que pelos outros. É uma mulher aberta para o mundo que, no entanto, começa a se fechar justamente pela falta de preparo. O Brasil que encontra não é o país do futuro, e, sim, o resultado de séculos de erros, descuidos e violências. As duas, portanto, precisam, ainda que não saibam, uma da outra. Porém, nem todo crescimento será mútuo e equilibrado.

Lúcia Murat é uma cineasta madura e experiente, que demonstra domínio no uso dos signos que decide dispor em sua trama. O resultado é um filme envolvente, que demonstra um crescente de tensão que não perdoa ninguém, independente do lado da tela em que se encontre. É preciso respirar, e suas personagens sabem disso. Uma terá que se sobrepor a outra, vencer o cordão umbilical que as ligam e se preparar para saltos mais altos. De um precipício ou do alto da própria vida, cabe a cada uma delas decidir. Perpetuar os erros, assumir seus desdobramentos ou, simplesmente, aprender com eles para, quem sabe, usá-los a seu favor. Pois o que Praça Paris tão bem demonstra, de forma sensível e determinante, o que temos em mãos pode, ou não, ser um fruto que não nos compete. Porém, seguir com esse peso ou fazer dele ponto de partida para algo completamente distinto é um direito individual e irrevogável.

As duas abas seguintes alteram o conteúdo abaixo.
avatar
é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
avatar

Últimos artigos deRobledo Milani (Ver Tudo)

Veja também

Comentários