Crítica


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Sinopse

Em um galpão abandonado, um casal de artistas contemporâneos observa a arte, a performance e sua intimidade se misturarem. A partir de sequentes contradições, eles vão aos poucos perdendo sua capacidade de distinguir o que faz parte dos seus projetos artísticos e o que nada mais é que a relação amorosa, criando até mesmo um conflito com seu passado.

Crítica

O galpão em que se passa Pendular é um espaço amplo, servidor das necessidades artísticas tanto do homem quanto da mulher que dividem o teto e o cotidiano amoroso. Ele (Rodrigo Bolzan) trabalha com esculturas, instalações que se valem de materiais distintos, como o ferro e o ar injetado em peças sintéticas alusivas a organismos vivos. Ela (Raquel Karro) faz do corpo seu estandarte, exprimindo essencialmente por meio dele a arte e os impulsos projetados ao exterior. A emblemática cena deles demarcando conjuntamente o território, dividindo o mesmo em duas partes semelhantes, sem paredes ou algo que os limite visualmente, serve para criar áreas individuais ao casal. A diretora Julia Murat construiu o roteiro em colaboração com seu marido Matias Mariani. Eles propõem um trajeto sinuoso, embora aparentemente retilíneo, sem pontos de tensão dispostos milimetricamente para garantir a adesão do espectador. Aliás, correm sérios riscos por conta dessa estrutura dramatúrgica singular.

Em princípio, temos duas pessoas convivendo harmoniosamente, seja no nível doméstico ou no social. As sequências de reuniões com amigos servem para estofar a organicidade do relacionamento nuclear, sem uma idealização que o descole da realidade, portanto, mantendo-o longe da inverossimilhança. Ele e Ela, assim chamados diferentemente dos outros personagens, que possuem nomes próprios, só se destacam dos demais pela sensibilidade artística, por buscar interpretações além do visível num primeiro instante. A realizadora espelha essa imprescindibilidade da minúcia ao focar-se nos detalhes, num pé retesado a fim de sustentar o peso do corpo – o literal e o metafórico – ou num olhar mais enviesado que denota fissuras insuspeitas. Na verdade, o ponto de partida ao surgimento da dissonância que ameaça o entendimento da parceria irrompe, significativamente, numa passagem simples, em que Ele solicita mais espaço a Ela, assim expandindo seus domínios e desequilibrando o todo.

Julia Murat quase passa do ponto ao privilegiar essa sensorialidade. O filme possui um andamento lento, por vezes resvalando no moroso, sem dúvida em acordo com os tempos dos personagens, solicitando adesão praticamente irrestrita para ressoar devidamente. Aos poucos, Ela ascende à posição de figura principal, especialmente por conta da representatividade de sua arte, da maneira como utiliza o corpo para transmitir o que ao verbo não é suficiente. Já Ele possui meios de expressão mais calcados em linhas e formas, gradativamente ocupando um espaço de inconformidade, ainda que sua irascibilidade possa ser confundida com frustração, pura e simplesmente. Há alguns propulsores em Pendular que fragilizam sua proposta, sendo um dos maiores deles, exatamente, a crise criativa que propicia a erupção do bloqueio pessoal, ou vive-versa, por sua obviedade conceitual, mesmo que acabe reforçando a simbiose entre arte e vida. Ele se torna arredio, enquanto Ela energiza a coreografia, apresentando excertos de beleza poderosos.

As cenas de sexo em Pendular são intensas e permeadas por uma fisicalidade evidentemente ligada ao âmbito do desejo. Evitando ancorar-se nos pontos de tensão, ou, ao menos, se esforçando para camufla-los em meio a um fluxo que justapõe arte e vida, Julia Murat cria um filme poético, nem sempre incisivo, mas que sustenta um discurso dos afetos, desconstruindo ideias acerca deles, buscando instilar, aos poucos, elementos que os permitem irromper na tela com força suficiente para reverberar. Rodrigo Bolzan e Raquel Karro possuem um entrosamento impressionante. A partir de determinado ponto, ela passa a concentrar em si a pertinência do longa-metragem, por funcionar como catalisadora, um corpo indócil que anuncia as tempestades e as bonanças, em contraposição ao companheiro cada vez mais casmurro, ensimesmado, como homem e artista. O percurso aqui nem sempre é dinâmico, ocasionalmente soa estagnado demais, mas, ainda assim, recompensa os dispostos a senti-lo.

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é crítico de cinema, membro da ACCRJ (Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro) e da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). É, também, professor da Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ.
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