Crítica

Um homem em busca da verdadeira história de seu pai, que está prestes a morrer. Os limites da imaginação de alguém que vive atrás de algo mais, do surpreendente, do irresistível. A diferença entre o desconhecido apaixonante e o comum aborrecido. As histórias que vivemos no decorrer de nossas vidas, sejam elas ilustradas pelo pincel da fantasia ou postas contra a luz do verossímil. Qual desses dois mundos é mais agradável de se habitar? E, mais importante: é possível condenar aqueles que se refugiam num por não serem capazes de enfrentar o outro? Estas são algumas das questões discutidas em Peixe Grande e Suas Histórias Maravilhosas, o mais íntimo e pessoal de todos os longas já dirigidos por Tim Burton.

Conceitos de realidade e ilusão são colocados à prova nesta encantadora obra assinada por um dos maiores diretores de Hollywood da atualidade. Burton revisita suas origens, a infância problemática e a complicada relação familiar para abrir espaço a uma história sobre hojes, ontens e amanhãs, filhos que buscam em todos os outros aquilo que apenas o pai, aquele que está mais próximo, poderá lhe oferecer. É um momento de ruptura, quando o novo se torna velho, que o imediato ganha nova e delicada leitura, que Peixe Grande se estabelece como um trabalho diferenciado dentro de um universo que tanto já ofereceu, mas ainda guarda possibilidades múltiplas a serem exploradas. Talvez não seja necessariamente o ponto alto da carreira do realizador, mas de fato se coloca como um dos mais completos e bem acabados exemplos de tudo que esse artista é capaz de produzir e idealizar.

Baseado no best seller escrito por Daniel Wallace, Peixe Grande tem como ponto de partida a história de Will Bloom (Billy Crudup), que está num momento crucial de sua vida: após ter chegado à maturidade sem ter uma ideia clara de quem realmente é, aos poucos começa a perceber que só poderá dar um início concreto à própria família – é recém casado, com um filho à caminho – quando acertar todas as questões pendentes que existem entre ele e o pai. Edward Bloom (Albert Finney), por sua vez, é daquele tipo de homem que todo mundo conhece, fácil de se gostar, mas difícil de se conhecer de verdade. Vive contando histórias fantasiosas a seu respeito, relatos que encantam na mesma proporção que exigem uma grande dose de boa vontade – ou ingenuidade – para que se tornem minimante críveis. Mais ou menos como a história do pescador que nunca volta no final do dia de mãos vazias, por mais que seja difícil se convencer de tamanha boa sorte.

John August, a partir deste roteiro, se tornou parceiro habitual de Tim Burton, tendo trabalhado em quase todos os filmes seguintes do cineasta. Sinal do bom entendimento entre os dois. Afinal, o roteirista é hábil em combinar o universo fantástico tão caro ao diretor com um enredo puramente humano. A união destes dois extremos resulta em um conjunto muito gratificante. Quando o filho decide finalmente ter uma conversa esclarecedora com o pai, o encontra seriamente doente, prestes a morrer. Will cresceu ouvindo – e acreditando – nas versões mágicas dos fatos que Ed lhe contava, até o ponto em que se rebelou – afinal, nada daquilo poderia ser verdade – o provocou um consequente afastamento. Mas esse é um erro que ainda pode ser consertado. É o momento de se colocar os pingos nos ‘is’. Antes, porém, algo precisa ficar claro: até que ponto Ed realmente inventava suas histórias ou apenas narrava o que de fato havia visto e vivido?

Os personagens de Peixe Grande tanto podem viver em uma realidade à parte da nossa como serem nossos vizinhos de porta. Habituado a discorrer sobre cenários mais deslumbrantes e fantásticos, aqui o realizador se mostra mais contido, porém nunca limitado. As aventuras vividas por Ed Bloom (que, na juventude, é interpretado pelo sempre competente Ewan McGregor, substituindo com tranquilidade o protagonista habitual do cineasta, Johnny Depp) discorrem sobre gigantes, cidades perfeitas onde todos são felizes, bruxas mal-humoradas, lobisomens donos de circos, irmãs siamesas, bebês que saltam de dentro da barriga de suas mães na ânsia de nascerem, e poetas que se tornam milionários em Wall Street. Entre as mais diversas fábulas, há ainda a do amor perfeito, aquela vivida por ele mesmo com sua esposa, que ganha corpo através das belas Jessica Lange, no tempo atual, e Alison Lohman, na passado. O relato sobre como se conheceram e se apaixonaram é rico e apaixonante, e a presença do genial Danny DeVito (de Batman: O Retorno, 1992) nesta sequência é um acréscimo e tanto. Um exemplo preciso do que a criatividade, quando canalizada e bem explorada, é capaz de atingir.

Peixe Grande é um dos filmes mais sentimentais da obra de Burton, se aproximando muito do espírito visto em Edward Mãos de Tesoura (1990). Mas o diretor vai além, e com inteligência e perspicácia, evita clichês óbvios, sem resvalar na pieguice comum a um assunto como esse: o acerto de contas familiar. Afinal, o que busca é mostrar que, uma vez que a crença exista em nós, tudo pode ser possível. Isso, é claro, aliado a um amor condicional, seja por um ente familiar, pelo amor eterno da pessoa amada, pela vida em si ou mesmo por nosso trabalho. Assim como Burton é enquanto cineasta, algo que demonstra aqui com maestria em todos os aspectos.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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