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Sinopse
Em Para Sempre Medo, Liz e Malcolm viajam até uma cabana isolada para celebrar um ano de relacionamento, em busca de tranquilidade e intimidade. O retiro romântico se transforma em pesadelo quando Malcolm precisa partir às pressas, deixando Liz sozinha no local. A partir daí, presenças perturbadoras e segredos ligados à cabana - e ao próprio casal - emergem, levando a protagonista a enfrentar um terror crescente que coloca em xeque sua sanidade. Horror.
Crítica
Alçado com rapidez à condição de novo “autor” do terror contemporâneo, Osgood Perkins tornou-se presença recorrente em cenário onde o medo custa pouco, vende muito e, sobretudo, precisa parecer novo. Parte dessa ascensão passa pelo ecossistema construído por empresas como a A24 e a própria Neon, empresa aqui envolvida, que possuem habilidades de mobilizar as gerações mais jovem nas redes sociais. Nesse contexto, Para Sempre Medo surge como o sexto longa de Perkins – ainda que apenas alguns títulos anteriores tenham, de fato, despertado interesse mais duradouro, longe de qualquer consenso, como Maria e João: O Conto das Bruxas (2020) e Longlegs: Vínculo Mortal (2024). Há, em sua proposta, o desejo de romper com o clichê e deslocar o olhar para figuras tradicionalmente marginalizadas. Paradoxalmente, porém, essa ambição parece conduzi-lo ao caminho oposto: quanto mais tenta se afastar das fórmulas, mais se vê aprisionado por elas.

O ponto de partida da trama é familiar. Liz, interpretada por Tatiana Maslany, aceita passar um fim de semana isolada na floresta ao lado do namorado, Malcolm (Rossif Sutherland), com quem mantém um relacionamento ainda em fase de descobertas. O que deveria ser refúgio romântico rapidamente se transforma em território de suspeita. A casa, cercada por vidro e ausência de proteção, a expõe como animal em observação. Malcolm oscila entre o afeto e o segredo, enquanto a presença do primo Darren amplia a sensação de que algo está fora de lugar. Ruídos no telhado, silêncios incômodos e a própria imobilidade de Liz diante do perigo constroem ambiente onde a vulnerabilidade é constante. As perguntas se acumulam, mas as respostas parecem sempre um passo além do alcance.
Esse tipo de horror, que prefere sugerir a revelar, depende da precisão com que distribui suas pistas. Sonhos, objetos e espaços funcionam como fragmentos de um quebra-cabeça emocional. É nesse terreno que vale apontar a colaboração com o roteirista Nick Lepard, em seu segundo trabalho no gênero após Animais Perigosos, também de 2025. Em ambos, há o esforço de construir protagonistas femininas atravessadas por força ambígua, algo que oscila entre emancipação e fragilidade. No entanto, essa indefinição não se converte em complexidade, mas em inconsistência. As personagens parecem fortes até deixarem de ser, conscientes até se tornarem peças passivas do próprio destino. Falta, talvez, compreender melhor aquilo que se deseja dizer sobre elas.
Dentro dessa engrenagem, Tatiana acaba sufocada narrativamente. Sua Liz é convocada a existir nesse limiar, mas o roteiro jamais lhe concede ferramentas reais para sustentar qualquer uma dessas dimensões. O que se vê é personagem constantemente à deriva, reagindo mais do que agindo, como se o destino já estivesse selado desde o princípio. Consagrada na televisão – sobretudo por seu trabalho premiado em Orphan Black (2013-2017) – a atriz ainda busca, no cinema, um papel que dialogue plenamente com sua capacidade dramática. Aqui, porém, sua trajetória é conduzida muito mais por forças externas do que por escolhas próprias, o que esvazia não apenas o senso de perigo, mas também a possibilidade de emancipação. Resta a impressão de que, independentemente do caminho, nunca foi realmente ela a estrela da companhia.

Divulgado como o mais recente “delírio sombrio” de Perkins, Para Sempre Medo faz jus ao termo, ainda que não necessariamente como elogio. A atmosfera é construída com paciência, quase método, apenas para ser desmontada por uma explicação tardia que reduz o mistério ao literal. O que antes era inquietação se torna exposição; o que era sugestão vira discurso. Resta a sensação de um percurso que se esforça para hipnotizar, mas desperta cedo demais. Perkins continua interessado em nos conduzir por territórios obscuros – mas até quando será possível confundir opacidade com profundidade?
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Grade crítica
| Crítico | Nota |
|---|---|
| Victor Hugo Furtado | 3 |
| Chico Fireman | 6 |
| MÉDIA | 4.5 |

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