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Em Paper Tiger, dois irmãos tentam construir uma nova vida em busca do sonho americano, mas acabam envolvidos em uma conspiração ligada à máfia russa. À medida que as ameaças se aproximam de sua família, a relação entre eles é colocada à prova por desconfianças e possíveis traições. Suspense.
Crítica
Em três décadas de carreira como diretor e roteirista, James Gray se consolidou como um dos principais nomes do cinema independente norte-americano. Construiu uma sólida obra autoral que geralmente conta com personagens lidando com aspectos diversos do Sonho Americano. Seu talento sempre foi reconhecido pelo Festival de Cannes: dos nove longas que dirigiu, nada menos do que seis deles participaram da competição pela Palma de Ouro. Uma marca admirável e a quase certeza de que basta o anúncio de que foi selecionado para sabermos que mais uma vez estaremos diante de um ótimo filme. E com Paper Tiger não foi diferente.
Trata-se de uma espécie de continuação informal de Armageddon Time (2022). Embora os personagens tenham outros nomes e a história seja diferente, a ação volta a acontecer em Nova York, com uma família de classe média do Queens lidando com questões financeiras. Se o outro se passava em 1980 e era assumidamente inspirado na infância do próprio diretor, agora estamos em 1986 e o personagem que representa James Gray poderia ser o filho mais novo de Irwin (Miles Teller) e Hester (Scarlett Johansson) – para se ter uma ideia da semelhança, o casal do longa anterior se chamava Irving e Esther, e o cineasta chegou a cogitar voltar a trabalhar com Jeremy Strong e Anne Hathaway, mas eles não estavam disponíveis.

O engenheiro Irwin, como seu quase homônimo, também está preocupado com o futuro financeiro dos filhos, por isso se deixa seduzir pela proposta de dinheiro fácil que chega através do irmão, Gary (Adam Driver): prestar consultoria para um empreendimento de empresa de petróleo ligada à máfia russa. A honestidade e o tino para os negócios do irmão, um ex-policial de reputação ilibada, o deixam tranquilo de que não há qualquer risco. Afinal, são 10 mil dólares para uma simples consultoria.
Só que um misto de ingenuidade com ansiedade por parte de Irwin o faz tomar uma atitude que gera desconfiança nos russos e, de uma hora para outra, a vida de toda a família se transforma em um inferno. O Sonho Americano logo desmorona e o filme se constrói como um thriller policial de luta pela sobrevivência.

Como de praxe nos trabalhos de James Gray, a mise-en-scène é impecável. Ele extrai o melhor do trio de atores principais, sobretudo na maneira como Adam explora seu fascinante personagem, enquanto Scarlett tem papel menor mas intenso e comovente. A direção de arte e a fotografia de Joaquin Baca-Asay nos transportam para a textura cromática e o ambiente dos anos 1980 (a produção é do brasileiro Rodrigo Teixeira), e a trilha sonora de Christopher Spelman acha o tom entre o drama e a tensão.
Paper Tiger é desde já um dos destaques do Festival de Cannes deste ano, mas sofre de um paradoxo que talvez explique por que nenhum de seus títulos foi premiado aqui até hoje: seu cinema é admirado pela crítica no mundo todo (sobretudo a francesa), mas talvez os jurados não enxerguem elementos estéticos e narrativos que configurem o que se convencionou chamar de “cara de festival”.
Filme visto durante o 79o Festival de Cannes, em maio de 2026
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