Crítica

Após estrear aclamada pela crítica com o documentário Elena (2012), produção de cunho extremamente pessoal premiada no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro e nos festivais de Brasília e de Havana, entre outros, a diretora Petra Costa decidiu buscar um tema mais leve para dar sequência à sua carreira cinematográfica. Para tanto, optou em acompanhar uma trupe teatral durante a montagem de uma nova versão de A Gaivota, texto clássico de Anton Tchekhov. Não seria uma proposta das mais originais – a primeira adaptação desta obra foi em um telefilme de 1959, sem esquecer da aclamada visão dirigida por Sidney Lumet em 1968. Mas ainda mais interessante do que os rumos determinados pelo dramaturgo russo há mais de um século são as insuspeitas reviravoltas que somente o destino pode proporcionar. E assim, baseando-se na surpresa e nas reações de seus protagonistas, surgiu Olmo e a Gaivota, uma reflexão poética e duramente real sobre a própria existência humana.

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Ao lado da dinamarquesa Lea Glob, que aqui assina seu primeiro longa-metragem, Petra Costa decidiu focar sua câmera no cotidiano do casal formado pelos atores Olivia Corsini e Serge Nicolai. Juntos há algum tempo, dividem com tranquilidade suas rotinas no trabalho e em casa. Escalados para liderarem o elenco antes mesmo do início dos ensaios, tem suas expectativas alteradas a partir de uma notícia inesperada: ela está grávida. E não só isso: trata-se de uma gravidez de risco, que a obriga a passar pelos próximos nove meses praticamente imóvel, encerrada dentro de casa e sem correr riscos, evitando movimentos bruscos ou maiores agitos. É o momento de um sonho que se sobrepõe a outro, de modo imperativo e determinante. E nada há o que fazer a não ser esperar.

Olmo e a Gaivota poderia ter se resumido a esse golpe de sorte – afinal, ninguém poderia esperar por essa brusca mudança, e muito menos sob condições tão específicas. Petra e Lea, no entanto, não só aproveitam a oportunidade que se desenhou diante delas, como se apoderam dela com tranquilidade e segurança, fazendo desse novo cenário meio para um exercício mais íntimo e profundo. Se em Elena a realizadora brasileira promovia uma investigação sofrida atrás dos passos de sua irmã suicida por uma Nova York que não a recebeu como esperado e que terminou por esmagar suas maiores ambições, dessa vez ela assume uma posição mais passiva, mantendo-se como uma espectadora privilegiada dessa mulher que tanto tem a fazer, mas que, ao mesmo tempo, é obrigada a permanecer estática por muito mais tempo que qualquer um suportaria se não fosse obrigado. Essa imersão possibilita não apenas acompanhar suas agruras, angústias e pequenas tristezas, mas também a descoberta de novos prazeres, o surgimento de um olhar diferenciado e um vasculhar íntimo tão raro quanto precioso.

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Muitos diante do mesmo cenário não alcançariam nem a metade da graça e da delicadeza perseguida pelas diretoras em Olmo e a Gaivota. Consciente da presença que exercem naquele ambiente cada vez mais escasso, as cineastas aos poucos começam a fazer parte também da narrativa, em uma quebra da quarta parede bastante especial, que mistura os limites do mero registro documental com uma ficção quase ensaiada, em que cada lado da obra ali produzida reconhecem seu valor e importância, ao mesmo tempo em que estão atentas ao resultado futuro que somente a união destes elementos poderá gerar. Assim como a inusitada combinação que resultou no título do longa, tão forte quanto singular, mas ainda assim perene como uma vida pronta para ser desbravada.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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