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Sinopse
Em Obeso Mórbido, Diego é um jovem ator em ascensão. No entanto, sofre com as marcas da obesidade que moldaram sua vida e carreira. Quem é ele? Quem gostaria de ser? Corpo e identidade se misturam em processos tortuosos. Drama.
Crítica
Vivemos em um mundo regido por aparências – nada exatamente novo. Frequentamos lugares que podemos pagar, nos relacionamos com pessoas semelhantes a nós e aprendemos, desde cedo, a reconhecer os códigos que garantem pertencimento. Eventualmente, porém, surgem atalhos: pequenas brechas que permitem manipular esses ecossistemas e acessar espaços antes interditados. Mas a que custo? Ao sair do próprio círculo, não estaríamos também nos moldando a algo que não somos em essência? Obeso Mórbido parte justamente desse incômodo ao dramatizar a história real de Diego Bauer, cineasta e ator que transforma seu processo de emagrecimento – já registrado em curta de 2019 – em jornada de autodescoberta sem filtros.

Na trama, encontramos um Diego aparentemente ajustado ao padrão de vida que decidiu buscar. Após perder quase 50 quilos, ele passa a habitar o corpo que acreditava ser necessário para que tudo, enfim, “funcionasse”. Agora, frequenta ambientes antes inacessíveis, se relaciona com mulheres que sempre desejou, veste roupas menores, adota a rotina intensa da academia… à primeira vista, o roteiro do sucesso parece estar em curso. Mas algo insiste em tensionar esse novo estilo de vida – um desconforto interno que o enredo nos apresenta sempre a partir de seu olhar, em permanente estado de observação e dúvida.
É evidente que Bauer parte de vantagem narrativa: ninguém conhece melhor essas vivências e inquietações do que ele próprio. Essa proximidade confere ao projeto um grau elevado de verossimilhança, especialmente quando o realizador decide expor – e modificar – o próprio corpo ao longo da obra. As transformações físicas não são exibidas como conquista ou fracasso, mas como dispositivos dramáticos que revelam perdas e ganhos distintos em cada fase. Quando magro, certas portas se abrem e outras se fecham; quando mais pesado, o movimento se inverte. O filme se estrutura, assim, como estudo de autoconhecimento em constante negociação. Quem é Diego, afinal? E quem ele deseja ser dentro de um mundo que insiste em lhe impor respostas prontas?
A câmera acompanha esse processo com atenção minuciosa, explorando o corpo como território social e político. Sexo, relações familiares, trabalho e círculos de convivência são atravessados diretamente pela forma como Diego ocupa o próprio corpo e é lido pelos outros. Seu lugar no mundo se constrói – e se desestabiliza – a partir dessa relação. Ao se expor sem pudores, Bauer transforma a própria vida em matéria cinematográfica aberta, quase confessional. A montagem de Eduardo Resing é decisiva nesse percurso, ao organizar as idas e vindas emocionais e temporais com precisão, evitando tanto a autopiedade quanto a glorificação fácil.

No fim, Obeso Mórbido se impõe como exercicio de coragem de Bauer, que compreende que sua história está longe de ser isolada e dialoga com um presente em que a promessa de adequação estética parece cada vez mais acessível – e mais opressiva. Entre soluções rápidas, expectativas alheias e desejos internalizados, o longa não oferece respostas simples, mas lança uma pergunta que ecoa para além da tela: se Diego parece ter encontrado, ao menos provisoriamente, o seu espaço, qual é, afinal, o nosso?
Filme visto na Mostra de Cinema de Tiradentes 2026.
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