Crítica

Depois de ter construído um filme inteiro dentro da sala dos jurados em 12 Homens e uma Sentença (1957), Sidney Lumet retornaria aos filmes de tribunal com um exemplar mais convencional, mas não menos brilhante, em 1982: O Veredicto. Estrelado por Paul Newman em uma grande performance, o longa-metragem foi indicado a cinco Oscar no ano de 1983 – Melhor Filme, Diretor, Roteiro Adaptado, Ator (Newman) e Ator Coadjuvante (James Mason) – mas acabou não levando nenhuma estatueta. É a velha máxima de que nem sempre grandes filmes recebem os prêmios merecidos.

Com roteiro de David Mamet, baseado no livro de Barry Reed, O Veredicto acompanha a trajetória do advogado beberrão Frank Galvin (Newman). Vivendo de bar em bar e sem um tostão no bolso, Galvin vê a chance de reverter sua situação com um caso facílimo, solucionável com um acordo extrajudicial: hospital administrado por igreja comete um erro e deixa uma mulher grávida em coma. Os familiares da vítima não desejam ir a julgamento, muito menos os médicos envolvidos e o hospital. Para Galvin, isso é perfeito, visto que perdeu todos os seus últimos casos e um acordo polpudo o colocaria de volta nos eixos. Uma crise de consciência, no entanto, não o deixa seguir o caminho fácil. Ao observar a jovem mulher deitada em uma cama, em coma, ele decide buscar pela justiça e não apenas por dinheiro fácil. Isso, claro, será difícil dada a flagrante falta de prática de Galvin e das formas como o hospital e seus advogados, encabeçados pelo competente e maquiavélico Ed Concannon (Mason), protegem seu caso. Cabe agora a Galvin, junto de sua nova namorada Laura (Charlotte Rampling) e de seu amigo de longa data Mickey (Jack Warden), conseguir construir uma boa acusação contra o hospital e seus médicos.

A construção do protagonista de O Veredicto é bastante interessante e David Mamet, como roteirista, e Paul Newman, como seu intérprete, merecem todos os elogios. Frank Galvin não é um herói. É um advogado mequetrefe, falastrão, que bebe como um peixe e age como um adolescente impulsivo. Ele entende isso como ninguém e, por isso, tem se fechado cada vez mais a novos casos. Não acha que merece trabalhar e ajudar as pessoas. Até que o encontro entre ele e a vítima do hospital muda tudo. Ou não. Sua consciência lhe diz que deve procurar justiça e o faz. Mas em nenhum momento lembra-se de perguntar aos familiares da vítima se era este o seu desejo. Irresponsavelmente, o advogado recusa o acordo e, logo depois, vendo que o caso poderia ser facilmente ganho, sai para beber para comemorar. Ou seja, as coisas mudam, mas não mudam. Sua autoestima ganha uma sobrevida, mas suas atitudes continuam as mesmas – claro, desta vez, buscando um resultado que poderia transformá-lo e redimí-lo de seus erros do passado. Quando tudo se transforma e Galvin observa que fora enganado e deve correr atrás do prejuízo, finalmente uma luz se acende dentro do advogado.

Atuando como um homem falho e interessantíssimo, Paul Newman entrega uma de suas mais competentes atuações. O ator não tem pudor algum em chegar ao fundo do poço junto de seu personagem. Suas bebedeiras e sua forma irresponsável de viver são retratadas de forma única por Newman, um homem que simplesmente nunca cresceu, de uma ingenuidade nada consonante com seus cabelos brancos. Fazendo uma ótima dobradinha com Jack Warden, observar Newman em O Veredicto só nos faz lembrar quanto falta um ator do seu porte no cinema atual.

Outro que faz muita falta é o próprio Sidney Lumet. O diretor entrega um filme muito bem costurado, com toques de suspense e drama na medida certa. Uma verdadeira história de Davi e Golias. Enquanto Frank e seu amigo Mickey trabalham juntos no caso, em uma pequena mesa em um minúsculo escritório, Concannon tem uma grande equipe, grandes recursos e toda a máquina operando a seu favor. O próprio juíz do caso, interpretado por Milo O’Shea, não faz questão de esconder o fato de estar inclinado à causa do hospital. Uma batalha bastante desigual, que só poderá ser vencida por Galvin se ele utilizar sua inteligência e as peças-chave do caso de forma correta.

Interessante observar a inclusão de um médico negro durante o caso, mostrando toda a hipocrisia e preconceito vigente na sociedade norte-americana. Quando Galvin coloca os olhos no doutor Thompson (Joe Seneca), seu semblante não consegue esconder a certeza de que sua testemunha – um senhor idoso e negro – poderia mais atrapalhar do que ajudar em seu caso, devido ao preconceito que ele bem sabe ainda existe. Do outro lado, Concannon se mune da forma como entende ser melhor – incluindo um advogado negro em sua equipe. Essa crítica a uma sociedade racista e nada respeitosa aos cidadãos mais velhos dura poucos minutos, mas deixa sua marca indelével no trabalho de Lumet.

É bem verdade que todo o caso é solucionado com um personagem que surge como um salvador da pátria, parecendo mais sorte de Galvin do que propriamente juízo. Mesmo assim, o roteiro de Mamet conduzido magistralmente por Lumet acerta muito mais do que erra. Somando-se às belas atuações do elenco, O Veredicto é mais um trabalho merecedor de distinção na carreira do diretor e do próprio Newman.

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é crítico de cinema, membro da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. Jornalista, produz e apresenta o programa de cinema Moviola, transmitido pela Rádio Unisinos FM 103.3. É também editor do blog Paradoxo.
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