Crítica

A história de Aparecido Galdino Jacinto possui todos os predicados para se transformar em um longa-metragem de ficção. De origem humilde, residente de Rubinéia, na margem esquerda do Rio Paraná, em São Paulo, esse homem viu sua cidade submersa pela construção de uma barragem, uma das primeiras grandes obras do período da Ditadura Civil-Militar, em 1971. Benzedor da região, um messias com direito a seguidores, Aparecidão decidiu formar um exército da salvação, como ele chamava, para conseguir reverter o destino de sua terra de origem. Foi preso, tido como louco e trancafiado durante mais de sete anos num manicômio judiciário. Uma história como essa precisava vir à tona e o diretor Leopoldo Nunes resolveu contá-la neste documentário intitulado O Profeta das Águas.

Em produção há mais de 20 anos, o filme é uma viagem ao interior do Brasil, com os depoentes envolvidos de alguma forma naquela trama que tem tons variantes de Canudos a Dom Quixote. Costurando alguns momentos da narrativa, há um poema de Carlos Drummond de Andrade chamado “Os Submersos”, que serve como crônica ora bem-humorada, ora engajada a respeito de Rubinéia e seus habitantes – que eram sete mil, quando da construção da barragem.

O que fascina em O Profeta das Águas é a construção da história na oralidade. Nunes busca testemunhas que viveram o fato. E, como não poderia deixar de ser, dado o tempo em que se passou, os depoimentos são bastante contraditórios. Por vezes em virtude de motivos políticos, visto que a polícia da época é entrevistada, noutras por falta de memória ou de certeza dos acontecimentos. Ótimo que o cineasta tenha consultado os dois pontos de vista. O próprio Aparecidão é um protagonista cujas palavras nem sempre podem ser levadas ao pé da letra. Nunes nunca julga seu personagem principal, dando-lhe a palavra e fazendo com que conte através de seus olhos o que lhe passou. Curiosamente, o próprio filho de Aparecido não acredita em curandeiros, o que coloca um ponto interessante na história daquele senhor.

Dentre os depoentes mais famosos, destaque para Dom Paulo Evaristo Arns, arcebispo de São Paulo, que ficou sabendo da trajetória de Galdino através do jornalista Ricardo Carvalho, da Folha de São Paulo. Os dois, junto de um time engajado, conseguiram tirar Galdino da prisão depois dele ter ficado mais de sete anos trancafiado. A época era tão tensa que Dom Arns temia que muitos outros Galdinos pudessem estar na mesma situação.

Por ter iniciado as gravações há muito tempo, Leonardo Nunes conseguiu depoimentos de pessoas que não mais estão entre nós – Dom Paulo é um deles, inclusive. A força do material capturado é maior que o estilo narrativo, bastante comum para documentários, ou das inserções musicais, que parecem fora de lugar de tempos em tempos. De qualquer forma, a temática é impactante o suficiente e O Profeta das Águas surge como mais uma realização que nos traz informações importantes a respeito dos mandos e desmandos do período da Ditadura Civil-Militar no Brasil. Se trancafiaram um sujeito pacífico como Aparecido Galdino – que, como o jornalista Percival de Souza tão bem pontua, não pertencia a movimentos revolucionários da época, imaginem o que fizeram com outras pessoas que não se curvaram à mão pesada da repressão.

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Rodrigo de Oliveira

é crítico de cinema, membro da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. Jornalista, produz e apresenta o programa de cinema Moviola, transmitido pela Rádio Unisinos FM 103.3. É também editor do blog Paradoxo.
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