Crítica

O título em português dessa animação da DreamWorks já deixa explícita uma vontade que, no filme, é demonstrada sob outras formas: entreter os adultos da mesma forma que diverte as crianças. O que Tom McGrath, diretor de O Poderoso Chefinho, se esquece, no entanto, é que é preciso mais do que bons personagens para se criar um filme interessante: é necessário, acima de tudo, de um roteiro relevante. E é justamente esse o calcanhar de Aquiles desse projeto: envolto por uma trama por demais infantil, para não dizer ingênua, todo o charme do projeto acaba recaindo sob os ombros desse bebê vestido de terno e gravata e que carrega uma maleta para todo o lado. O inesperado, portanto, serve para despertar a curiosidade. Porém, uma vez captada a atenção do espectador, será difícil mantê-lo conectado com o que se passa na tela até o fim da história.

Quem conhece o histórico de McGrath entende bem esse modo de pensar. Afinal, ele foi responsável pela direção dos três longas da saga Madagascar, que não só renderam figuras hilárias como o leão Alex ou a girafa Melman, como também entregaram ao mundo o lêmure Rei Julien (que ganhou uma série própria na Netflix) e os impossíveis Pinguins de Madagascar (2014), que inclusive estrelaram um filme próprio. E se ninguém lembra muito bem do que acontece com cada uma dessas figuras, todos guardam carinho especial pelos tipos em si. Mais ou menos o que percebemos acontecer em O Poderoso Chefinho. Basta olhar para o bebê que qualquer um ficará encantado, ainda mais diante de suas reações surpreendentes. Já Tim, o irmão mais velho, que enfrenta os conflitos de lidar com uma nova criança na casa e perder seu lugar de filho favorito – ainda mais diante de um pequeno tão ‘especial’ quanto esse – é o que serve de ponte com a audiência, facilitando a identificação do espectador. Quem nunca passou por isso antes? Ao mesmo tempo, no entanto, quem não sabe como uma situação como essa irá acabar?

Deixando de lado a questão da previsibilidade – sim, a conclusão é exatamente a que qualquer um pode antever sem muito esforço – o resultado é quase anticlimático. Até porque há dois encerramentos – o lógico, um tanto frustrante diante da sinuca criada pelos roteiristas, e o seguinte, feito apenas para agradar aqueles em busca de ‘mais do mesmo’. Afinal, não é porque a faixa etária do público-alvo é baixa que se deve menosprezar sua perspicácia – será que as crianças, assim como qualquer adulto, também não gostariam de ser surpreendidas uma vez que outra?

A lógica proposta é a seguinte: assim como no recente Cegonhas (2016), os bebês não provêm de uma forma natural, resultado do amor de duas pessoas. Não, eles surgem como produto de uma fábrica que, no entanto, vem perdendo espaço para sua principal concorrente: a Puppy Co, que gera cãezinhos de estimação. “Se todo mundo tiver um filhote, quem irá querer um bebê?”, afirma a diretora da empresa (!!!). O Poderoso Chefinho é enviado para a Terra para se fingir de filho de um casal de marqueteiros e, assim, descobrir qual o segredo da outra companhia e, de posse dessa informação, enfim derrotá-la. Como Tim quer voltar a ser filho único e ter novamente as regalias as quais estava acostumado, decide ajudar o pequeno. No processo, os dois, obviamente, irão se afeiçoar um pelo outro, até o ponto de se questionarem se desejam, mesmo, se separarem.

E o que sobra para os adultos, portanto? As referências são muitas. De obras cultuadas como O Sucesso a Qualquer Preço (1992) a clássicos como Mary Poppins (1964), há várias em cena à espera de serem reconhecidas pelos pais entediados. Já os meninos e meninas na sala poderão dar boas risadas com as aventuras e trapalhadas dos dois irmãos que aprendem como o trabalho em conjunto pode oferecer bons resultados. Mas não há muito mais além disso. Tem-se um enredo pouco criativo, que parte de uma premissa absurda e defende argumentos ultrapassados como se fossem algo inovador. Não é. Pelo contrário, o que se tem é uma visão conservadora e tradicionalista, com pais alienados daquilo que se passa com seus próprios filhos e vilões unidimensionais que enxergam na vingança a única solução para os seus problemas – o estilo Disney fazendo escola. É uma jornada, portanto, que até diverte e entretém durante o caminho, mas que não apresenta nada de novo em seu final, contentando-se com uma soma de elementos inferior às suas partes em separado.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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