O Olhar Misterioso do Flamingo

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Sinopse

Em O Olhar Misterioso do Flamingo, em 1982, uma doença desconhecida se espalha por uma cidade mineira no deserto chileno, levando à perseguição de homossexuais acusados de transmiti-la. Enquanto isso Lidia, de 12 anos de idade, investiga o que está por trás da crise. Drama.

Crítica

Um título como O Olhar Misterioso do Flamingo não pode, obviamente, ser levado ao pé da letra. Desde o princípio, portanto, fica evidente o caráter alegórico, até mesmo fantasioso, adotado pela narrativa conduzida pelo chileno Diego Céspedes. Assumindo o ponto de vista de uma criança, o cineasta busca estabelecer um diálogo não apenas relacionado à difícil sobrevivência de comunidades LGBTQIAPN+ em pequenos vilarejos espalhados pelo interior, como também em relação às estruturas que eternizam e multiplicam o preconceito, o ódio, a violência e o desamparo. Sentimentos esses que possuem em comum uma mesma origem: a ignorância. Aqui, percorrida como algo tão improvável, quanto encantador. Assim, o realizador não apenas amplia seu discurso, evitando exageros panfletários e potencializando os exemplos manifestados em cena por meio de uma obra ao mesmo tempo madura e sensível.

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A trama é ambientada no ano de 1982, e qualquer pessoa minimamente informada sobre o percurso da AIDS compreende de antemão o que esse apontamento histórico significa: muitas informações equivocadas, suspeitas infundadas, desconhecimento, medo e insegurança. Em um povoado desértico estabelecido nos arredores de uma cultura mineira e exploradora dos recursos ambientais, poucos por ali conseguem sobreviver. É um ambiente quase que em sua totalidade de homens – de todos os homens. Inclusive dos afeminados. Travestis, gays e agregados também irão encontrar nessas redondezas um lugar de acolhimento e trabalho – nem que esse se dê na calada da noite, longe dos olhares dos demais (por mais que todos façam o mesmo). Agredidos – física e verbalmente – durante o dia, são os mesmos que recebem esses violentadores quando o sol se põe e os contatos não estão mais expostos. A hipocrisia, como se percebe, não é privilégio dos grandes centros – muito pelo contrário.

Lidia (Tamara Cortes) é a única menina – e indo mais além, poderia se dizer também estar sozinha entre as representantes do sexo feminino – em toda a região. Abandonada na soleira do prostíbulo quando era ainda bebê, foi criada por Flamingo (Matías Catalán, de Oro Amargo, 2024), a quem reconhece como mãe adotiva. A criança, porém, é vítima de bullying por parte dos garotos de sua idade, jovens em formação que não mais do que repetem os atos e dizeres dos adultos. O que ela sente, porém, é pouco perto do sofrimento enfrentado pela figura materna. Flamingo está doente. Mais do que isso, seu amante, Yovani (Pedro Muñoz), parece estar enfrentando o mesmo mal. O espectador moderno sabe bem o que há com eles. Mas há mais de quatro décadas, em um lugar longe de tudo e todos, qualquer teoria poderia suscitar as mais diferentes explicações ou justificativas. Inclusive as mais absurdas.

É exatamente o que acontece. Os homens – os mesmos que sob a luz da lua as procuram – sob o sol incandescente passam a acusar as travestis e homossexuais de serem responsáveis por essa doença inominável que estaria se alastrando. E como fariam isso? Pelo simples olhar. Bastaria não mais encará-las diretamente, para que o perigo deixasse de existir. A prostituta mais velha e dona do negócio sabe que, sozinha, não lhe resta muito o que fazer. E quando a tragédia há muito anunciada se confirma, estaria sob a pequena remanescente e esperança por um muito – uma vida, uma existência – melhor. Exatamente a missão que a garota irá assumir para si.

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Há muita verdade do roteiro também escrito por Céspedes, assim como a dor e o prazer andam de mãos dadas em circunstâncias como as aqui descritas. Mas há também poesia, momentos de pura alegria e uma fé renovada se não no agora, mas talvez como herança para futuras gerações. O Olhar Misterioso do Flamingo fala mais do que apenas sobre o desejo reprimido, o repúdio disfarçado de preconceito ou a diferença que a educação pode fazer não apenas a um, mas a toda uma realidade, quando posta no centro das discussões. Eis, enfim, a diferença entre a vida e a morte, a continuidade e o desaparecimento, o fim que não se acaba e o prolongamento de uma vontade que não pode ser silenciada, desprezada e muito menos eliminada. Mudar é preciso, assim como também o é atravessar e superar o sofrimento intrínseco ao caminho. Pois é ele que ensina e, acima de tudo, transforma.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.

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