Crítica

Você já viu este filme antes: um jovem tímido é transferido para uma nova escola, onde passa por diferentes testes, luta contra os valentões, e, se tudo der certo, conquista a garota. Das reprises da sessão da tarde com Karatê Kid: A Hora da Verdade (1984), séries essenciais como Freaks & Geeks (1999) ou clássicos do calibre de Juventude Transviada (1955), há incontáveis variações sobre este mesmo tema. Ainda assim, a comédia juvenil que marca a estreia do ator Rudi Rosenberg como diretor, O Novato, consegue introduzir alguma inovação, graça e leveza a uma premissa tão recorrente.

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Seja favorecendo os nerds contra os bullies ou demonstrando o quão divertido pode ser pertencer à esfera mais baixa do espectro social escolar, O Novato extrai comicidade espontânea de um elenco de desajustados liderado por Benoit (Rephael Ghrenassia). O adorável garoto de 13 anos se muda com seus pais para Paris e, por lá, descobre as agruras tão comuns da adolescência, numa escola onde, como todas as outras, os jovens mais populares são aqueles mais ricos, bonitos e esportivos.

Vencedor do prêmio destinado a novos diretores no Festival de San Sebastian, Rosenberg não tem o mesmo mérito na condução de seu roteiro, que peca em alguns aspectos de continuidade e ritmo. Em algum momento do segundo ato, o desenvolvimento do longa se torna episódico e soa como a colagem de diversas esquetes, mas nada que, em outro parâmetro, não privilegie o desenvolvimento de seus personagens e suas interações. Em alguns aspectos, a estreia do cineasta remete ao sueco Lukas Moodysson e seu debute cinematográfico com Amigas de Colégio (1998), projeto de pretensões semelhantes e, em grande maioria, igualmente bem-sucedidas.

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Não há um arco narrativo muito maior do que a premissa de O Novato revela, além de retratar a gradual evolução de Benoit, que eventualmente descobre que ser legal é menos importante do que se sentir bem consigo mesmo e com seus amigos – mesmo que não ocupem o topo da cadeia alimentar escolar. Numa cidade que mantém os costumes e valores superficiais desde a monarquia francesa, onde beleza e riqueza ainda são primordiais, é um prazer ver um filme que torce pelos oprimidos.

Gracioso e fresco, O Novato apresenta com verossimilhança uma etapa da vida tão ordinária quanto de apelo universal, geralmente explorada pelo cinema numa abordagem que prioriza o efeito e o riso fácil antes da autenticidade. O que temos aqui é justamente o contrário, uma produção que não surpreende pela presunçosa novidade de seu tema, mas pela forma que o apresenta, fugindo dos lugares comuns do gênero. Talvez seu êxito não fosse possível sem o trabalho primoroso de seu jovem elenco, onde, além do protagonista Benoit (Ghrenassia) e do estranhíssimo e encantador Joshua (Joshua Raccah), destaca-se a impressionante personificação para Aglaee por Geraldine Martineau – que interpreta uma adolescente com deficiência e, longe das câmeras, é uma mulher deslumbrante de 31 anos!

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Há algumas passagens de O Novato que são duras de se assistir, não por seu conteúdo violento ou transgressivo, mas principalmente por retratar fielmente um momento de nossas vidas onde a humilhação é dolorosa, mas crucial no processo de crescimento, como um rito de passagem para as incertezas da vida adulta. Não há qualquer necessidade de que um filme transmita alguma mensagem, mas o discurso que Rosenberg aqui expõe é tão essencial quanto relevante, o que o torna uma sessão obrigatória principalmente para adolescentes em fase escolar – talvez melhor ainda numa sessão dupla com o igualmente terno As Vantagens de Ser Invisível (2012).

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é crítico de cinema, membro da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. Graduado em Publicidade e Propaganda, coordena a Unidade de Cinema e Vídeo de Caxias do Sul, programa a Sala de Cinema Ulysses Geremia e integra a Comissão de Cinema e Vídeo do Financiarte.
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