Crítica
Leitores
Onde Assistir
Sinopse
O Morro dos Ventos Uivantes acompanha a paixão arrebatadora e destrutiva entre Catherine Earnshaw e Heathcliff, um órfão acolhido pela família na sombria propriedade de Yorkshire. Separados por convenções sociais após Catherine se casar com um vizinho rico, os dois são consumidos por amor, ódio, ciúmes e obsessão, desencadeando uma espiral de vingança que atravessa gerações e marca profundamente as famílias Earnshaw e Linton. Drama/Romance.
Crítica
O texto clássico de Emily Brontë talvez esteja entre algumas das obras mais frequentemente adaptadas para o formato audiovisual. Até então, é provável que a mais conhecida seja O Morro dos Ventos Uivantes (1992) com Ralph Fiennes e Juliette Binoche, mas desde 1920 – data da primeira versão levada às telas – nomes como Laurence Olivier, Luis Buñuel, Yoshishige Yoshida, Claudio Marzo, Katherine Heigl, Tom Hardy e Kaya Scodelario, entre tantos outros, já estiveram envolvidos em dezenas de transposições. Portanto, qual o sentido em se filmar mais uma vez a mesma história, se não para acrescentar novas camadas de interpretação, outras possibilidades de leitura, diferentes enfoques e propostas de abordagem? Bom, eis o que a diretora e roteirista Emerald Fennell não faz com esse seu O Morro dos Ventos Uivantes. E por um motivo básico: ela praticamente ignora o original. O que se tem aqui é mais uma apropriação, e menos uma homenagem, inspiração ou sequer fonte de pesquisa. Permaneceu-se apenas o mínimo essencial. E o resto é Fennell do início ao fim, com todos os excessos desmedidos, provocações baratas e confusões estéticas que marcaram também seus trabalhos anteriores. Para o bem e, principalmente, para o mal.

Atriz bissexta, tendo participado como coadjuvante de títulos como Albert Nobbs (2011) e A Garota Dinamarquesa (2015), Emerald Fennell capturou rapidamente as atenções ao estrear como realizadora com Bela Vingança (2020), filme que lhe rendeu um Oscar como roteirista e mais duas indicações, como produtora e diretora. Pois mesmo esse longa estrelado por Carey Mulligan já não se mostrava isento de falhas, principalmente em seu terço final, que ultrapassava o tom em sua proposta e acabava por se contradizer em alguns dos seus elementos mais básicos. E se esse conjunto permitiu controvérsias, com o seguinte Saltburn (2023) esse embate se tornou ainda mais cristalizado. O mau gosto se sobrepunha ao discurso almejado, restando pouco além de uma cafonice visual e medidas capazes de trair até mesmo os anseios de seus personagens.
O mesmo caminho é trilhado nesse O Morro dos Ventos Uivantes. Além da relação entre uma jovem se vê obrigada a se casar por dinheiro, ao mesmo tempo em que abandona aquele que acredita ser o amor de sua vida, pouco resta de semelhante com o tomo escrito por Brontë em 1847. Saem essa mulher perdida em seus sentimentos e o rapaz incapaz de lidar com sua fúria e frustração, e no lugar o que se tem é uma garota insensível em relação aos próprios privilégios e um menino, ainda não homem, mais preocupado em revidar as humilhações sofridas do que em saciar qualquer eventual dor no coração. Não por acaso, os protagonistas precisam dizer a todo o tempo “o quão grande é o AMOR que sentem um pelo outro”. Fala-se muito, justamente porque suas ações não se mostram convincentes o suficiente. É como se o dito tivesse como função distrair daquilo que é feito. O discurso soa bonito, mas cada ação contrária termina por gritar mais alto.
Margot Robbie se confirma uma escolha equivocada para interpretar uma adolescente apaixonada, impelida pelo pai a se sacrificar por meio de um casamento comercial visando garantir seu status social. Os rompantes românticos aos quais sua Cathy se vê tomada dia sim e outro também são evidentemente alegóricos, mas também absurdos diante de uma maturidade que se espera, mas nunca se alcança. Ela ignora o pai por anos, mas sofre com a morte dele. Ela brinca com o meio-irmão como se ainda fossem crianças, mas dele sente ciúmes quando não se apresenta prontamente para satisfazer suas vontades. Declara amor ao marido, mas entra e sai de casa para se encontrar com o amante como se desculpas não fossem necessárias e a paciência do homem traído fosse infinita. Jacob Elordi se encaixa melhor como o icônico Heathcliff, não apenas por ser mais jovem, mas pela face dura que oferece quando finalmente entende fazer parte de um jogo doentio e tóxico. Seu retorno, munido de condições suficientes para despertar atenções para si, nunca chega a ser explicado, tal qual sua partida anos antes. Pouco importa. Afinal, ele é só objeto de desejo, e como tal é tratado por Fennell. O revanchismo histórico faz sentido e merece lugar, mas por qual razão se contentar apenas com isso, quando se havia tanto mais a perseguir?

De quartos cor-de-rosa à lareiras idealizadas como descidas ao inferno, de lamaçais que corrompem qualquer pureza às festividades familiares que soam mais como videoclipes ensaiados do que representantes de um bem-estar há muito almejado, não resta montanha a ser superada, ventos com os quais lidar e menos ainda uivos incapazes de serem contidos neste O Morro dos Ventos Uivantes. Tudo aqui está na superfície, à flor da pele, pois é a satisfação do fetiche e o alcance de um prazer imediato que interessam à cineasta, e não o sublime de um amor que perdura diante de qualquer adversidade. O elenco faz o que pode com o pouco que lhe é oferecido, mas é certo que essa é apenas mais uma peça em um xadrez controlado por aquela no comando, que desta condição não compartilha e nem permite debate. O visual pode impressionar, com a mesma força em que se dissipa uma vez apreendido pelo espectador. Todo exagero tende a encontrar seu lugar de apaziguamento. Tal qual mais uma vez se sucede. O impacto da palavra e da emoção, relegados a uma posição subalterna, se esvai em meio a fantasias e distrações que, ao invés de agregar, apenas esmaecem aquilo que, por si só, deveria bastar.
PAPO DE CINEMA NO YOUTUBE
E que tal dar uma conferida no nosso canal? Assim, você não perde nenhuma discussão sobre novos filmes, clássicos, séries e festivais!
Últimos artigos deRobledo Milani (Ver Tudo)
- Depois do Fogo - 12 de março de 2026
- O Cavaleiro dos Sete Reinos : T01 - 10 de março de 2026
- A Noiva! - 10 de março de 2026
Grade crítica
| Crítico | Nota |
|---|---|
| Robledo Milani | 4 |
| Alysson Oliveira | 3 |
| Francisco Carbone | 7 |
| Ticiano Osorio | 7 |
| Lucas Salgado | 3 |
| Chico Fireman | 4 |
| Suzana Vidigal | 3 |
| MÉDIA | 4.4 |

Deixe um comentário