Crítica

Há quem diga que apenas crianças conseguem ver o mundo mágico que a natureza esconde, pois diferentemente dos adultos, os pequenos teriam uma desenvoltura muito maior para lidar com paralelos encantados. Para elas, todos os portais fantásticos se abririam com maior facilidade por acreditarem piamente neles.

Por outro lado, intelectuais como Carl Jung e Gilbert Durand apontam o inconsciente e a imaginação simbólica como poderosas dimensões psíquicas pelas quais todos lidamos com imagens míticas. Para os pensadores da psicologia analítica e da teoria do imaginário, nós conseguiríamos lidar com essas representações arquetípicas – imersas nas camadas mais profundas da mente – apenas em momentos de forte energia psíquica, como em sonhos ou psicoses. Conforme Jung, os mitos vivem em nós, porém nos são invisíveis na maior parte do tempo, tornando-se livres e atuantes somente nestes casos especiais.

Guillermo del Toro parte do princípio sobre a alta capacidade imaginativa das pessoas, especialmente das crianças, para contar o dolorido conto fantástico O Labirinto do Fauno, lançado em 2006, momento em que a Espanha lembrava os 70 anos do início da guerra civil que assolou o país e culminou com a vitória do general fascista Francisco Franco em 1939. No longa vencedor de vários prêmios Oscar, BAFTA e Goya, a menina Ofélia (Ivana Baquero) muda-se com a mãe Carmen (Ariadna Gil), viúva, para a casa do capitão Vidal (Sergi López), militar que combate grupos da resistência no interior do país.

Acuada pela rigidez do padrasto e temendo pela sobrevivência de Carmen, que enfrenta tanto uma gravidez quanto uma grave doença – sendo os ciclos de gestação, nascimento e morte alguns dos símbolos ligados ao arquétipo da Grande Mãe, de acordo com a teoria do imaginário –, Ofélia dissocia-se do real e atende ao chamado de um fauno, divindade da floresta que a identifica como princesa de um reino ancestral que está ausente de seu trono há muito tempo. Para voltar a este mundo mítico, Ofélia precisa dar início a uma jornada heroica composta por etapas com grau de dificuldade crescente, e que poderá afastá-la de sua própria vida mundana.

A curva ascendente dos desafios simbólicos de Ofélia rumo ao desconhecido, dos quais nenhum adulto compartilha, tem contrapontos reais. É semelhante à fragilidade do quadro de saúde de sua mãe, que se intensifica constantemente. Ao mesmo tempo, seu percurso ritualístico segue um movimento paralelo ao próprio acirramento dos combates entre militares e rebeldes, que tentam derrotar as forças do governo autoritário ávido pelo poder na Espanha.

O belo roteiro de Del Toro alinha estes três núcleos de forma excepcional, transformando-os em um único bloco narrativo que alterna constantemente realidade e fantasia, deixando a cargo do espectador a leitura final sobre o que realmente se passou com Ofélia. Ou seja, é tarefa do público entender se ela realmente entrou em contato com o fantástico, oriundo da natureza mítica inatingível pelos adultos, ou se toda sua história não foi fruto da própria imaginação, em uma tática psíquica de negação e autodefesa contra a tragédia familiar que se abateu sobre sua vida.

Com coragem para abordar um contundente drama infantil de fundo político e com traços arquetípicos, livre de qualquer rastro piegas ou sentimentalismo vazio, e adornando o filme com altas doses de psicologia analítica, imaginação simbólica e efeitos visuais que valorizam o teor fantástico da obra, Del Toro apresenta em O Labirinto do Fauno uma de suas melhores produções. Com o filme, sugere que crianças são a priori mais capazes de lidar com a fantasia, o simbolismo e o pensamento mágico do que adultos, mas também indica que todos podemos ser tocados pelo poder imaginativo do cinema mesmo quando estamos desvinculados de sonhos ou psicoses.

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é jornalista, doutorando em Comunicação e Informação. Pesquisador de cinema, semiótica da cultura e imaginário antropológico, atuou no Grupo RBS, no Portal Terra e na Editora Abril. É integrante da ACCIRS - Associação dos Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul.
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