Crítica

No dia 26 de dezembro de 2004 um tsunami varreu a costa de treze países e levou com suas ondas a vida de 300 mil pessoas. O tema, que poderia render mais um simples “filme catástrofe”, ganha as telas do cinema com um drama eficiente focado em uma família que sobreviveu à tragédia. O Impossível é denso, seco e causa espanto pelo seu realismo, ao mesmo tempo que emociona pelo contexto familiar. Porém, acima de tudo, é entretenimento de boa qualidade.

Para que a tragédia não ganhasse ares de banalidade, o diretor espanhol Juan Antonio Bayona conduz a história como um suspense em que o grande vilão é a força da natureza. No início só há uma tela escura com o som das ondas devastadoras. Em seguida, somos apresentados à família que vai passar as férias em um resort na Tailândia. Ao mesmo tempo em que somos bombardeados com imagens da família feliz, se divertindo seja em casa, na praia ou na piscina, intercalam-se cenas que mostram o mar e apenas ouvimos sua pretensa calmaria antes do que estava para acontecer, como um verdadeiro antagonista tramando sua vingança.

Estes momentos dentro d’água causam tensão a quem está do outro lado da tela. Um nervosismo que aumenta quando o fatídico momento acontece. Os efeitos especiais reproduzem da forma mais fiel e aterrorizante possível o que foi a onda gigante, fazendo o espectador senti-la como um monstro que devorou tudo que estava em seu caminho.

É após o terror da devastação que o drama se intensifica ao se focar na batalha pela reunião desta família, que ficou perdida após o evento. Maria (Naomi Watts) é uma médica que há anos deixou a profissão de lado para tomar conta dos filhos Lucas (Tom Holland), Thomas (Samuel Joslin) e Simon (Oaklee Pendergast) e viaja com o marido Henry (Ewan McGregor) a negócios. Segundos após o desastre ela é carregada pelas águas e consegue enxergar Lucas. Sua batalha para conseguir encontrar o filho no meio d’água rende minutos de ação real e ininterrupta, em que a agonia toma conta da plateia. Ela tem seu seio perfurado, assim como uma das pernas, mas a força natural de mãe toma conta de seu corpo e da performance irretocável de Naomi Watts, que mesmo cansada, ferida e tomada pela dor, quer apenas encontrar sua família. Bayona não mede esforços para registrar, seja em planos abertos ou no close up da atriz, seus gritos e seu olhar cada vez mais desesperançoso.

Por conta da gravidade do estado da mãe, Lucas acaba amadurecendo precocemente e se sente obrigado a ajuda-la, o que também desperta no garoto a necessidade de auxiliar outros feridos pelo desastre. Por sinal, uma atuação surpreendente do jovem Tom Holland. Por outro lado, Henry se descobre sozinho em meio aos escombros até reencontrar seus outros dois filhos, que saíram ilesos fisicamente do ataque da onda gigante. McGregor mergulha no personagem e, em um dos momentos mais marcantes da produção, faz uma ligação telefônica para um de seus parentes e chora copiosamente ao se dar conta, em voz alta, do desespero que é estar longe de sua família.

Este medo é o fio condutor da narrativa, desde antes da tragédia. Quando a família está no avião, todos exprimem este sentimento de alguma forma, seja através do pavor de uma turbulência aérea ou do simples fato de ter esquecido de ligar o alarme quando saiu de casa. O desespero toma proporções ainda maiores quando os personagens se encontram perdidos entre milhares de pessoas que sofrem a mesma situação. A frase “pense em uma coisa boa”, repetida à exaustão em vários momentos do longa, apenas reflete aquilo em que seus protagonistas podem se segurar: às boas lembranças antes do desastre.

É claro que há maneirismos em O Impossível, especialmente nos desencontros entre filhos, irmãos e pai nas cenas que antecedem a possível reunião familiar enquanto Maria agoniza na maca do hospital. Talvez esta derrapada prejudique um pouco a narrativa, que até então seguia bem conduzida no clima de tensão e drama natural. Fica a questão se realmente aquele momento de encontro de todos surgiu daquela maneira. Afinal, o filme é baseado em fatos reais. Não apenas da tragédia, mas da família de Maria e Henry.

Contudo, este pequeno deslize não desmerece o filme, ainda mais quando logo depois o diretor também mostra que o final feliz não é para todos e a câmera foca várias pessoas em busca de notícias de seus parentes, chorando ao ver a lista de mortos ou simplesmente perdidos e parados em um canto com um olhar triste. Bayona também evita transformar o tsunami em um grande espetáculo ao economizar nos planos abertos que mostram a devastação causada pela onda, o que direciona sua atenção para seus personagens. É realmente para se emocionar, mas não por artifícios. E sim porque uma tragédia deste tamanho não tem como mensurar.

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é crítico de cinema, apresentador do Espaço Público Cinema exibido nas TVAL-RS e TVE e membro da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. Jornalista e especialista em Cinema Expandido pela PUCRS.
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