Crítica


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Sinopse

Em 1963, na serra gaúcha, o jovem Tony Terranova precisa lidar com a ausência do pai, que foi embora sem avisar à família e, desde então, não deu mais notícias ao filho. Tony é professor de francês num colégio da cidade, convive com os conflitos dos alunos no início da adolescência e vive o desabrochar do amor. Apaixonado por livros e pelos filmes que vê no cinema da cidade grande, faz do amor, da poesia e do cinema suas grandes razões de viver. Até que a verdade sobre seu pai começa a vir à tona e o obriga a tomar as rédeas de sua vida.

Crítica

Não falta beleza em O Filme da Minha Vida, adaptação cinematográfica do livro Um Pai de Cinema, do escritor Antonio Skármeta. O diretor Selton Mello investe na criação de um clima essencialmente poético para dar conta da ausência que assombra Tony (Johnny Massaro). As paisagens campestres da serra gaúcha – que substituem o análogo cenário chileno da trama literária – são fotografadas por Walter Carvalho com o intuito de tirar delas uma aura de flagrante lirismo. Ilustrando a voz embargada do narrador-protagonista, surgem propriedades onde o tempo parece completamente estagnado. O início dos anos 60 nessa localidade alude aos 50, ou seja, há um atraso, típico das cidades interioranas em que a modernidade tarda a chegar. Remanso é esse espaço do qual o filho de pai francês (Vincent Cassel) e mãe brasileira (Ondina Clais Castilho) parte para conseguir o precioso diploma de professor. No mesmo trem da volta, seu progenitor se vai, retornando à França, deixando para trás saudades e não ditos.

O Filme da Minha Vida mostra a dificuldade de Tony para seguir adiante sem o amparo do pai. Selton ancora essa sensação, sem muitas variações, no olhar constantemente perdido do jovem cujo comportamento se assemelha ao de um menino imaturo. Obviamente, a intenção é explicitar até que ponto a desilusão oriunda do distanciamento o impede de efetivamente chegar à vida adulta. Daí a importância da presença frequente de Paco (Selton Mello), amigo da família, o mais próximo de uma figura paterna na vizinhança. Pesando demasiadamente a mão nos elementos que fogem à esfera técnica, o realizador contraria a representatividade da imagem e do percurso que busca construir. O filme oscila entre o oferecimento de respostas através de silêncios dolorosos, banhados pela luz idealizada para conferir aura de transcendência, e os esclarecimentos por meio de explanações banais. Então, frente à fragilidade dramática, a opulência visual sobressai tortuosamente.

Johnny Massaro alterna bons e maus momentos como o protagonista de O Filme da Minha Vida, em parte por conta da concepção prévia do personagem, que o coloca numa posição de passividade em relação aos coadjuvantes que nem sempre substanciam a sua jornada. O envolvimento com Luna (Bruna Linzmeyer) é superficial, servindo apenas como viés de iniciação sentimental para o rapaz ainda em vias de descobrir os meandros do amor. A opção pela garota, já que também suspirava por sua irmã mais velha, Petra (Bia Arantes), se dá puramente por conveniência, uma vez que o cineasta não investe recursos significativos para evidenciar afinidades preexistentes. A mãe, isolada em sua rotina de trabalho e afazeres domésticos, é uma entidade calada, que passa pelo longa-metragem sem marca-lo sobremaneira. Alguns alívios cômicos são bem-vindos inicialmente, mas perdem validade em virtude do aproveitamento frágil de suas potencialidades, vide o menino obcecado pelo prostíbulo local.

Selton Mello faz com O Filme da Minha Vida seu trabalho mais irregular enquanto realizador. As minúcias, tão importantes para o inventário sentimental visto na tela, são colocadas em segundo plano, preteridas em função de uma estrutura ligeiramente fragmentada que tenciona, sem sucesso, atribuir às elipses o encargo de tornar a narrativa mais porosa às vicissitudes e à perspectiva melancólica do protagonista. Na condição de ator, Selton tenta ocasionalmente roubar os holofotes, criando um personagem bronco, afeito a frases de efeito. Aliás, as sentenças prontas abundam no decorrer do enredo, ajudando a dirimir a amplitude de sua dimensão poética. Já a referência ao western Rio Vermelho (1948), de Howard Hawks, é um deleite para os cinéfilos, contudo se soma aos demais procedimentos no que tange à falta de jeito, pois o paralelo (de paternidade) estabelecido entre as obras é explicitado para não termos maiores dúvidas. Selton faz um filme bonito, mas combalido pela própria aspiração à grandeza.

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é crítico de cinema, membro da ACCRJ (Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro) e da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). Professor da Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ, também leciona ocasionalmente na Academia Internacional de Cinema/RJ.
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