Crítica

Mais de 150 mil elefantes mortos em cinco anos. Hoje, um animal destes é assassinado a cada 15 minutos. E 15 parece ser mesmo o número definitivo para a espécie, que em uma década e meia pode ser extinto do planeta. O motivo: a ganância humana. Ou, mais especificamente, a caça por venda de marfim. É sobre esta inescrupulosa atividade e os dóceis e inteligentes elefantes que a Netflix produziu o ótimo documentário O Extermínio do Marfim, um estudo aprofundando sobre a caça ao animal e sobre como esta rede criminosa está aniquilando estes seres.

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Nas filmagens ocorridas em boa parte na África Austral, acompanhamos o trabalho de defensores, biólogos e quem ama animais para defender os elefantes da ameaça constante de caçadores de recompensas. Estes trabalham para o mercado negro na China, onde a maior parte do marfim é comercializado. É um jogo de gato e rato que, para os mais desavisados, pode parecer um filme de ação ou suspense. Os diretores Kief Davidson e Richard Ladkani não se furtam de, em um momento, apresentar uma família de elefantes tranquilamente fazendo suas refeições e mostrando afeição uns com os outros para, momentos depois (especialmente quando a noite chega), mostrar a tragédia que ocorre quando os matadores atingem seus alvos. Sim, cadáveres são expostos, sem floreios. O propósito é chocar e causar uma reflexão a respeito de tantas mortes sem sentido. A polícia vai atrás, mas eles são mais inteligentes, espertos, com contatos melhores e, é claro, uma tecnologia bélica muito mais avançada para seus fins. Um desafio que vai além da capacidade de uma região subdesenvolvida para defender o meio ambiente.

Porém, a produção se revela muito maior ao mostrar que o conflito não é isolado na África e atinge dimensões geopolíticas. Tanto que um ativista fala claramente que apenas uma pessoa pode definir o destino da espécie: o presidente da China. Tudo porque o comércio de marfim é liberado no país, ainda que com uma quantidade limitada, mas os produtos ilegais são expostos sem vergonha nenhuma nas ruas, com poucos querendo falar (denunciar) a respeito. Um quilograma equivale a três mil dólares. Um negócio perigoso, violento e amoral, mas lucrativo sob o ponto de vista de quem quer enriquecer sem olhar o próximo. Com câmeras (nem tão) escondidas, os cineastas capturam inúmeras conversas entre os comerciantes e agentes secretos, causando pura tensão na tela. É um exercício interessante, pois o filme não palestra para o público, e sim o faz vivenciar cada momento.

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Fosse uma ficção, o longa de Davidson e Ladkani seria um exemplar perfeito de um 007 com ativismo em destaque. Os envolvidos na defesa dos elefantes são verdadeiros heróis que, diariamente, arriscam a vida para batalhar contra a caça ilegal, mesmo tendo muitos episódios sem sucesso. Um cenário pessimista que pode chegar ao grande público e, quem sabe, não apenas alertar, mas reverter a situação. O mais urgente possível, é claro. Afinal, é só lembrar dos números. Há apenas 15 anos para que os elefantes não se transformem em uma raça que, daqui a algumas gerações, será lembrada apenas por ser protagonista de animações fofinhas.

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é crítico de cinema, apresentador do Espaço Público Cinema exibido nas TVAL-RS e TVE e membro da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. Jornalista e especialista em Cinema Expandido pela PUCRS.
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