O Convite

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Sinopse

Em O Convite, Joe e Angela atravessam uma fase delicada no casamento e decidem convidar os vizinhos do andar de cima, Pina e Hawk, para um jantar em casa. O que parecia ser uma noite comum, porém, toma rumos inesperados, desencadeando uma série de situações cada vez mais imprevisíveis e colocando à prova as relações entre os quatro. Comédia/Drama.

Crítica

Volta e meia o cinema indie – aquele que tem charme de independente, mas é bancado por subsidiárias dos grandes estúdios e invariavelmente conta com nomes conhecidos se esforçando para saírem de suas “zonas de conforto” – é acometido por algum tipo de febre que elege como “imperdível” certos títulos que não resistem a um olhar mais detalhado. Nesse ano, há poucos meses, O Drama (2026) se encaixou nessa definição, e o mesmo tem se repetido com esse O Convite, um drama repleto de personagens asfixiados por suas aspirações modernas e preocupações mundanas, mas que por detrás de todas essas distrações se mostra mais do que apenas convencional, transitando entre o ultrapassado e o conservador por caminhos assustadores. É fácil se apegar por sua roupagem transada ou pelos dilemas experimentados em cena, muitos deles por demais semelhantes com aqueles conhecidos por uns (ou tantos). O que esse tipo de filme não anseia, porém, é um olhar apurado e um mergulho denso em suas provocações. Pois não permite que tal desprendimento ocorra, uma vez que transcorre por planícies tão rarefeitas que impossibilitam esse viés de aproximação. O raso, portanto, é que dita as regras.

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Conhecida pela beleza hipnotizante, tão inegável quanto suas limitações enquanto intérprete, Olivia Wilde construiu um nome em Hollywood ao aparecer em produções irremediavelmente esquecíveis, como Ano Um (2009) ou Eu queria ter a sua vida (2011). Essa percepção começou a mudar quando assumiu a direção do simpático, ainda que discreto, Fora de Série (2019). A onda de boa vontade a seu favor que esse título gerou foi quase que por inteira desperdiçada com seu projeto seguinte, o ambicioso – e problemático – Não se preocupe, querida (2022). O Convite, portanto, é quase como uma volta às origens, um esforço no sentido que reconquistar uma confiança que para muitos já se desfez. E ela o faz sem assumir riscos. Para começo de conversa, trata-se de uma refilmagem, transposição para o inglês do espanhol Sentimental (2020). Também controlou o ambiente – a ação passa quase que na sua totalidade dentro de um mesmo apartamento – e o elenco – há apenas quatro atores em cena. E se esses, ao menos parte deles, entregam o que se poderia esperar, por outro lado está no roteiro – e acima de tudo, nos diálogos – a causa de tamanho naufrágio.

São quatro personagens. O neurótico inseguro, a frígida que está constantemente reclamando de algo, o discreto sedutor e aquela que tanto pode ser um vulcão sexual como uma atenta observadora. Qualquer diretor de casting com um mínimo de experiência pensaria nos nomes de Seth Rogen, Olivia Wilde, Edward Norton e Penélope Cruz para esses papeis, mas talvez não fosse adiante com esse intuito, justamente por serem escolhas óbvias demais. Quer dizer, quase todos, menos a responsável por este projeto, pois foi justamente o que ela fez: entregou para si e para seus amigos os tipos mais previsíveis possíveis. Se por um lado Wilde e Norton se mostram um pouco mais equilibrados com o conjunto, o mesmo não se pode dizer de Rogen – aparecendo pela enésima vez como o macho de baixa autoestima e humor depreciativo – e de Penélope – que busca desesperadamente ir além dos escassos limites que lhes são oferecidos. Ele como passo em falso, portanto, sendo o oposto dela, que brilha mesmo frente às mais adversas conjunturas. Olha que surpresa, justamente a latina é quem interpreta a sexóloga que troca de parceiro sem arrependimento, afirmando apenas que “estava na hora”. Que revolucionário!

Angela (Wilde) decidiu oferecer uma noite de queijos e vizinhos para melhor conhecer os vizinhos do andar de cima. Joe (Rogen), seu marido, afirma não ter sido avisado das intenções da esposa, o que ela nega veemente. Ele acaba cedendo, pois vê na ocasião que se aproxima uma oportunidade de manifestar seu desagrado em relação aos barulhos que o casal que recém se mudou costuma fazer madrugada adentro. Piña (Cruz) e Hawk (Norton), antes mesmo de baterem à porta, escutam do corredor a discussão dos anfitriões, mas isso não os impedem de irem adiante. São recebidos, e o desconforto vai lentamente sendo esmaecido, sem, no entanto, desaparecer por completo. A dinâmica entre eles vai alternando de um jogo a quatro até duplas diversas que se formam não ao acaso. Até que, enfim, o título do filme encontra espaço para se manifestar. Não se trata da recepção preparada, portanto. O Convite fala dos protagonistas, mas não de algo provocado por eles, pelo contrário. O foco está nas suas reações. São os outros que tem algo a lhes propor. O cunho sexual é evidente. Mas como já foi dito em mais de uma ocasião: “quem não faz, fala”. Exatamente o que por aqui se encontra: muita discussão, desencontros e desentendimentos, e pouca – ou nenhuma, para ser mais exato – consumação de tais interesses.

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Se mostrando quase como uma versão comedida e até mesmo careta de outros títulos semelhantes mais pertinentes, O Convite frustra tanto por sua falta de coragem em cumprir o anunciado, como pela ausência de maturidade em lidar com esta temática, recorrendo ao riso constrangido ou ao embaraço infantil quando diante de questões que mereciam uma abordagem mais frontal e reflexiva. Sem apostar na radicalização dos embates desenhados, como fez o tenso Deus da Carnificina (2011), e longe de alcançar a destreza na troca de acusações e pontos de atenção como visto no clássico Quem tem medo de Virginia Woolf? (1966), Olivia Wilde arma uma armadilha até para si mesma, compondo um discurso redundante e inconclusivo sobre relacionamentos modernos, abusando da pretensão na mesma medida em que falha em almejar lógicas próprias. E assim, tudo o que consegue é incorrer na leitura mais desagradável da teatralidade, mantendo intenções na superfície, sem o crédito do agora para se diferenciar de uma mera – e descartável – tentativa, até que válida em suas intenções, mas distante de qualquer ganho digno de nota.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.

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