Crítica


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Sinopse

Martín Marchand é um líder político carismático, brilhante e comprometido. Essa é a ideia central da campanha que o lançará na disputa política. Seus assessores, reunidos em sua casa de campo, desenham seu perfil sem descanso, ainda que alguns tenham chegado até ali para acabar com as fantasias do candidato.

Crítica

A graça de O Candidato advém de sua abordagem essencialmente irônica das situações que envolvem a campanha de um aspirante a deputado no Uruguai. Martín (Diego De Paula) é um protótipo destas figuras dúbias, proliferadas no convulsionado cenário real da atualidade, que se aproveitam do descrédito da sociedade quanto aos políticos. Empresário cujo apelo está calcado justamente no fato de não ser um servidor de carreira, ele se vale, assim, de um discurso meramente populista para angariar votos. O cineasta Daniel Hendler – também ator, bastante conhecido – aborda esse homem pelo viés da sátira, aproveitando-se da concepção precisa de De Paula, o intérprete dele, para ressaltar certo automatismo, tornando clara a sensação de estarmos diante de alguém que efetivamente cai de paraquedas, por puro oportunismo, numa área que foge da sua alçada. Todos permanecem encerrados na propriedade opulenta do candidato, preparando o “terreno” com jingles e spots publicitários.

As interações são permeadas pelo ridículo, inoculado em cada movimento desta comédia que extrai do evidente paralelo com a realidade sua potência e representatividade. Há amostras de boa parte dos tipos que se alimentam de pleitos eleitorais, de Enrique (César Troncoso), sujeito que abertamente manipula Martín, facilitando a assimilação de ideias, sem muita resistência, a Mateo (Matías Singer), designer que embarca sem grandes ambições nessa nau furada, senão a de fazer um bom trabalho, independentemente de sua natureza. Aliás, ele é quem deflagra, no meio de uma das reuniões a fim de discutir conceitos e diretrizes, o mecanismo perverso do motor pretensamente utilizado para oferecer ao povo uma opção viável de voto. Seu simples questionamento em relação à inclinação ideológica do candidato, se à esquerda ou à direita, provoca reações que evidenciam a alienação política dos envolvidos, incluindo a do próprio postulante ao cargo público, que decide isso levianamente.

Daniel Hendler faz com O Candidato um retrato agridoce, embora inconstante, das engrenagens que movem o processo da construção da imagem de homens e mulheres públicos, geralmente despreparados, politicamente falando, que conquistam posições com falácias sobre renovação e promessas insustentáveis a médio e longo prazo. O clima de paranoia reinante, com senhas de internet sendo trocadas diariamente e pessoas controlando rigorosamente entradas e saídas, amplia a demonstração da natureza nebulosa dos intentos dos partícipes dessa ciranda que gradativamente ganha contornos mais espessos, sem com isso deixar de lado a dimensão grotesca, que alimenta a vocação cômica do longa. Símbolo disso é Gabriel (José Luis Arias), o leão de chácara da fazenda. Ele se reporta ao arquétipo do mordomo de filmes de terror, com planos subentendidos. O sorriso inquietante, os olhos profundos e o comportamento de quem se dispõe a fazer tudo (mesmo) pelo patrão o definem.

Na medida em que a sensação de perigo cresce, porém, O Candidato perde um pouco de sua abrangência, exatamente porque desloca o foco do social ao particular. Passamos tempo demais acompanhando as dificuldades de Mateo, um dos únicos personagens completamente alheios ao circo montado para fazer de Martín um forte oponente nas urnas. O desfecho mostra, porém, que não há como desvencilhar-se da responsabilidade, já que somos todos animais políticos por natureza, embora alguns gostem de bradar aos sete ventos sua ojeriza por assuntos relativos à forma como somos governados. Determinadas inconsistências também depõem contra o filme. A maior delas é o grave erro de continuidade que permite um carro anteriormente impedido de transitar, em virtude de um pneu furado, sair em desabalada carreira logo depois, apenas porque isso melhor convém ao andamento das coisas. Todavia, fragilidades à parte, é uma realização que observa os absurdos da política e de seus agentes.

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é crítico de cinema, membro da ACCRJ (Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro) e da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). Professor da Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ, também leciona ocasionalmente na Academia Internacional de Cinema/RJ.
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