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Sinopse
Narciso acompanha um menino negro e órfão que vive na casa de Carmem e Joaquim ao lado de outras crianças à espera de adoção. Sonhando com uma família, ele enfrenta uma dolorosa decepção que abala sua esperança. Para animá-lo, um dos amigos lhe dá uma bola de basquete mágica e promete que, ao acertar três cestas, um gênio surgirá para realizar todos os seus desejos. Drama/Fantasia.
Crítica
O mito de Narciso vem da mitologia grega e há milênios vem influenciando a contação de histórias e a criatividade ocidental. Dotado de imensa beleza, o rapaz era filho do deus do rio Cefiso e da ninfa Liríope. Um oráculo, ainda antes do nascimento da criança, os teria advertido: “o filho de vocês terá vida longa, desde que nunca veja o próprio rosto”. Pois é basicamente esse alerta da história universal que permanece na releitura proposta pelo cineasta Jeferson De em Narciso, seu sétimo longa-metragem. E tal aproximação não é novidade em sua carreira. Um dos primeiros curtas que realizou, há mais de duas décadas, se chamava Narciso Rap (2004), que pode ser apontado como um embrião desse trabalho mais recente. Em ambos, os protagonistas compartilham do mesmo dilema. Como lidam com essa situação e a origem que carregam são elementos acabam por fazer diferença. Além de evidenciar o amadurecimento do realizador, disposto a discutir não apenas uma questão social, mas ampliando o debate por meio de uma narrativa curiosa e envolvente.

Se em Narciso Rap um garoto negro da periferia, uma vez em contato com uma lâmpada mágica, pede ao gênio que não deseja mais sofrer preconceito – e, assim, passa a ser visto como branco pelos brancos, e como negro pelos negros – esse mesmo contexto é explorado em Narciso, porém por meio de uma estrutura que, apesar de não abrir mão da fantasia, a situa com os dois pés fincados na realidade. O Narciso de agora é um menino que mora em uma casa de passagem, ou seja, entre o orfanato e um eventual lar adotivo. Logo nos primeiros instantes, o espectador se depara com um momento triste na vida de qualquer jovem em igual desamparo: uma devolução. A família que o havia escolhido não o aceitou – uma esperada adaptação não ocorreu, e há economia nesse relato: não se sabe ao certo o que teria acontecido, apenas que estão o levando de volta. A imagem é sucinta, porém direta: o garoto treme no banco de trás, enquanto que os possíveis pais, sentados à frente, demonstram querer se livrar com urgência daquela situação. Incômoda para eles. Trágica para o menino.
Há lacunas frente aos acontecimentos seguintes, e a maneira escolhida pelo diretor para transpor um excessivo didatismo foi confiar no elenco e na força do todo, ao invés de se preocupar com qualquer explicação ou esclarecimento reiterativo. Um aniversário está chegando, os motivos do retorno ficam suspensos, olha-se para frente, evitando preocupações passadas – por mais que essas sigam presentes. Percebe-se ser essa uma trama esticada, o que se justifica por se tratar, como dito acima, de um curta adaptado para um formato mais longo. A estrutura está praticamente dividida em três momentos, e o equilíbrio se mostra calculado: cada um com aproximadamente 30 minutos, para uma obra que ao todo tem 1h30min de duração. Antes, durante e depois. A decepção, o pedido e realização, e o desfecho. Desenvolvido com calma, sem atropelos, permitindo a aproximação da audiência, e com isso facilitando o entendimento sobre uma causa que pode parecer estranha a muitos, mas diz respeito a todos.
O jovem Arthur Ferreira (que antes fora também o personagem-título – função que aqui repete – em A Festa de Léo, 2023) abraça com segurança o desafio ao qual seu personagem se vê submetido. Seu Narciso entende o que está se passando, e lida com a rejeição por meio do silêncio. Tanto é que, quando o fantástico ganha corpo na narrativa, o garoto será o primeiro a estranhar. Mas sem lógicas internas, engenharias esquemáticas ou contorcionismos elaborados: o que se é, assim se dá, e pronto. Uma bola de basquete, três arremessos certeiros e um pedido concedido. O mago interpretado por Seu Jorge não foge dos tipos já vividos pelo cantor no cinema, mais uma vez emprestando seu status de celebridade sempre um tom acima – e dando sentido a essa postura. Quando o protagonista adquire essa interpretação dupla – negros aos olhos negros, branco frente aos brancos – a contradição maior se dará em si, e não naqueles que lhe são externos. Muito está em como o veem, é certo, mas mais ainda reside na maneira como ele decidirá se apresentar ao mundo.

É por isso que, em Narciso, Jeferson De subverte a fórmula que apontava para vaidade e preciosismo estético, trazendo para a discussão outras questões mais pontuais, como negritude, identidade e consciência racial. Se muda a maneira como os demais o veem, a pessoa que você é por dentro também irá se alterar? Resistir a esse enfrentamento não é mais mero prazer pessoal, mas diz respeito a pertencimento, origem e que lugar ocupar numa sociedade que a todo instante insiste em restringir os espaços comuns de direito. Narciso conhece seu ponto de partida, e uma vez ciente de onde pode ir, somente ele mesmo poderá se impedir. Por isso é importante o entorno. Sem esforços de convencimento, mas com o exemplo presente e verdadeiro. Poderia ser apenas uma olhada rápida, uma leve piscada, quase um flerte. Mas enganar, aqui, seria antes de qualquer coisa uma trapaça consigo. Uma mudança pequena, mas início de uma transformação maior – e mais profunda.
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Grade crítica
| Crítico | Nota |
|---|---|
| Robledo Milani | 6 |
| Alysson Oliveira | 4 |
| Francisco Carbone | 7 |
| Ailton Monteiro | 6 |
| Ticiano Osorio | 5 |
| MÉDIA | 5.6 |

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