Moscas

Crítica


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Sinopse

Em Moscas, Olga leva uma vida rigidamente controlada e solitária em um enorme prédio de apartamentos, evitando vínculos e qualquer desordem emocional. Pressionada por dificuldades financeiras, ela decide alugar um quarto, mas o novo inquilino chega acompanhado do filho de nove anos, mantido às escondidas. A presença da criança rompe sua rotina previsível. Drama/Comédia.

Crítica

Uma pessoa de meia idade que vive em solidão autoinfligida após um trauma e exibe traços de misantropia tem a rigidez de seu cotidiano bruscamente rompida pela espontaneidade de uma criança que, mesmo em situação de vulnerabilidade, aos poucos a reconecta ao mundo. Esse ponto de partida batido já serviu a muitos filmes anteriormente, do brasileiro Central do Brasil (1998) ao checo Kolya: Uma Lição de Amor (1996), só para citarmos títulos da década de 1990 que concorreram ao Oscar. Em Moscas, o diretor mexicano Fernando Eimbcke constrói uma narrativa que, apesar de correta, não traz nenhum grande frescor para a premissa.

De um lado, temos Olga (Teresita Sánchez), uma mulher casmurra e metódica, que decide alugar um quarto em seu apartamento para conseguir dinheiro para realizar uma pequena cirurgia. Como o apartamento fica nas proximidades de um hospital, o quarto é alugado por Tulio (Hugo Ramírez), cuja mulher está ali internada em estado grave. Precisando cuidar do filho na ausência da esposa e sabendo que Olga não aceita a presença de crianças, Tulio esconde Cristian (Bastian Escobar), seu filho de nove anos, no quarto. Quando Olga descobre a criança, quer expulsar pai e filho, mas concorda com sua permanência por alguns poucos dias, período em que (obviamente) vai ter seu duro coração amolecido pela espontaneidade do menino.

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Apesar dessa coleção de situações dramáticas pouco originais, o filme trabalha com fina ironia a necessidade de Olga de permanecer em um universo fechado, inteiramente controlado por ela – já na primeira sequência, ela surge tentando espantar uma mosca que ousou romper a impenetrabilidade do seu lar. Em realidade, o ponto alto da narrativa é a divertida brincadeira com a ideia de invasão do espaço alheio, levada às últimas consequências: Tulio traz o filho para a casa de Olga sem sua autorização; Olga e um enfermeiro ajudam o menino a visitar a mãe em alas de hospital proibidas para crianças; Cristian tem como principal distração uma máquina de fliperama chamada Defensores Cósmicos, em que o objetivo é eliminar invasores intergalácticos.

Esses bons elementos mantêm o interesse pelo filme, que traz momentos enternecedores, apoiando-se principalmente na espontaneidade do protagonista infantil. Ainda assim, a virada de Olga, que passa a gostar da companhia do menino de uma hora para outra e sem justificativas plausíveis para tal, soa abrupta. O roteiro também não se preocupa em justificar de forma adequada a ausência do pai, até então um homem delineado como responsável e amoroso, no terço final, sendo esse desaparecimento apenas uma ferramenta para forçar a aproximação e a construção de intimidade entre a mulher solitária e o menino traquinas. A fotografia em preto-e-branco (assinada por Maria Secco) flerta com alguns elementos do universo de ficção científica, que surgem como projeções da imaginação infantil. Ao fim e ao cabo, a sensação é de um filme irregular, mas com passagens pontuais inspiradas, capazes de elevar o conjunto.

Filme visto durante o 76º Festival de Berlim, na Alemanha, em fevereiro de 2026

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é professora, pesquisadora e crítica de cinema (filiada à Abraccine). Formada em Cinema pela UFF e Doutora em Ciência da Literatura pela UFRJ, com pesquisa sobre as inter-relações entre o cinema e a literatura. É autora do livro "Olhar o mar: Woody Allen e Philip Roth — a exigência da morte" (Editora Verve, 2015). Faz parte do conselho editorial do site Críticos. Fundou, ao lado de Carolina Amaral e Marcel Vieira, o seminário temático Estudos de Roteiro e Escrita Audiovisual na Socine e atualmente trabalha como especialista em conteúdo audiovisual.
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