Crítica


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Sinopse

A escritora e psicanalista Lou Andreas-Salomé decide reescrever suas memórias aos 72 anos. Ela relembra sua juventude em meio à comunidade alemã de São Petersburgo. Desde criança, sonhava em ser intelectual e estava determinada a nunca se casar ou ter filhos. Além de trabalhar com nomes famosos, ela escreve sobre os relacionamentos conturbados com Nietzsche e Freud, além da paixão por Rilke. Conflitos entre autonomia e intimidade, junto com o desejo de viver sua liberdade.

Crítica

Desde muito pequena, Louise von Salomé demonstrou dificuldades para entender por que homens eram tratados com tanta discrepância em relação às mulheres. Essa rebeldia infante, com ares mais que de travessura natural, é contada pela própria Lou (Nicole Heesters), já aos 72 anos e com uma saúde bastante debilitada, ao homem que, em princípio, chega à procura de sua expertise psicanalítica abafada pela ascensão de Hitler. A cineasta Cordula Kablitz-Post se preocupa claramente com as filigranas, mostrando ao largo a marcha dos alemães rumo à Guerra e a decorrente perseguição a todo tipo de literatura, ciência e/ou campo do saber associado (arbitrariamente) aos judeus. Então, esse verdadeiro ícone trata as inquietações psicológicas do escritor desempregado que relata, maquiando sua história como se de um amigo próximo, as dificuldades conjugais e o bloqueio criativo, determinantes ao seu fracasso, fazendo dele biógrafo. Portanto, o que vemos em Lou são versões comprometidas do real.

Ciente da complexidade de abordar essa personagem histórica, que mais tarde assumiu o nome Lou Andreas-Salomé, a cineasta chega a brincar com a impossibilidade de um relato destituído de manipulações ou algo que as valha. A própria Lou, em dado momento, prefere colocar embaixo do tapete seus casos amorosos, se referindo ironicamente a essas omissões recorrentes, especialmente quando o próprio “pintado” é o autor ou, de perto, supervisiona a escritura. Curioso, mas para apresentar esse procedimento, Cordula precisar expor a “verdade”, supostamente ludibriando a supressão imposta diegeticamente. Lou (interpretada na fase adulta por Katharina Lorenz) é retratada como uma vanguardista que lutou ferrenhamente contra o destino doméstico de seu gênero, brigando com quem necessário fosse para garantir o direito ao crescimento intelectual e à emancipação das vontades do macho, numa sociedade que demorou muito para, ao menos, reconhecer a urgência da pauta.

Chama a atenção o belíssimo recurso plástico utilizado especialmente nas transições. Pinturas e fotografias são transformadas em cenários momentâneos, nos quais os atores se deslocam livremente, como se deles fossem partes que acabam de ganhar vida. Lou se aferra ao discurso feminista da protagonista, mostrando uma série de envolvimentos dela com pensadores da época. Rainer Maria Rilke (Julius Feldmeier) lhe demonstra afeto e encanto profissional. Logo depois, os filósofos Paul Rée (Philipp Hauß) e Friedrich Nietzsche (Alexander Scheer) compõe com Lou uma trinca de intelectuais dispostos a desafiar as convenções. Até Sigmund Freud (Harald Schrott) atravessa o caminho da escritora, sendo o único de seus interlocutores célebres que não se enamora por misturar alhos e bugalhos. Aliás, Lou é aqui devidamente valorizada como livre pensadora. O mesmo não pode ser dito ao âmbito da sua produção literária, poucas vezes acessada como instância determinante de sua posteridade.

Lou busca a todo o momento enfatizar a força de Lou Andreas-Salomé diante desses homens notáveis, alguns deles vítimas da não correspondência do amor manifestado, ou seja, de certa forma, enfraquecidos pela determinação pétrea dela à liberdade, nem que isso custasse inicialmente sua renúncia aos prazeres da carne. Narrativamente falando, o filme de Cordula Kablitz-Post logra êxito ao intercalar passado e presente, sobretudo por conta do trabalho competente do elenco como um todo. Porém, ainda assim, Katharina Lorenz sobressai, construindo uma protagonista evidentemente forte, mas que deixa visível ocasionalmente uma fragilidade insuspeita. Tentando escapar ao convencional, para isso se valendo de elementos visuais e alternâncias temporais, senão procedimentos originais, aqui minimamente funcionais, o longa-metragem esquadrinha com vigor essa mulher que nunca viu motivos para se submeter aos ditames masculinos e do Deus projetado de sua infância.

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é crítico de cinema, membro da ACCRJ (Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro) e da ABRACCINE (Associação Brasileira de Críticos de Cinema,). É, também, professor da Escola de Cinema Darcy Ribeiro/RJ.
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CríticoNota
Marcelo Müller
7
Robledo Milani
5
MÉDIA
6

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