Crítica

Uma ilha perdida no meio do oceano e invisível para a civilização. Um empreendedor ambicioso disposto a tudo. Uma bela donzela (aparentemente) indefesa. Um valente desbravador. Um exército armado até os dentes e sem a menor noção do que está prestes a enfrentar. Uma tribo indígena defendendo e saudando forças muito maiores. E, é claro, um macaco gigante. Os elementos estão todos lá. Porém, o que faz de Kong: A Ilha da Caveira uma produção diferente das suas antecessoras, seja o clássico King Kong (1933), de Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack, o campy & trashy King Kong (1976), de John Guillermin, ou o incrivelmente bem-sucedido King Kong (2005), de Peter Jackson, vencedor de 3 Oscars e responsável por uma bilheteria mundial de mais de US$ 550 milhões? As mudanças, como se pode imaginar, vão muito além da alteração do título. Alterou-se tudo, ainda que se tenha preservado o básico. O longa do desconhecido diretor Jordan Vogt-Roberts é, mais do que uma refilmagem, uma releitura. E essa escolha se confirmou tão certeira quanto adequada aos tempos atuais.

Peter Jackson, logo após ganhar o Oscar por O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei (2003), optou para ser seu primeiro projeto longe da Terra Média de Tolkien um remake do clássico dos anos 1930, uma versão, no entanto, que fosse a mais fiel possível, ainda que incrementada com o melhor do que a tecnologia do início do século XXI tinha a oferecer. Esta foi uma decisão correta, e o resultado dos seus esforços não poderia ter sido mais feliz. Doze anos se passaram deste então, e ainda que cronologicamente esse possa ser visto como um curto período de tempo, é inevitável concordar que o mundo mudou muito de lá para cá. Estamos mais cínicos, incrédulos e, ao mesmo tempo, desesperados por qualquer tipo de fantasia escapista. Kong: A Ilha da Caveira, surpreendentemente, é tudo isso e mais um pouco, vitaminado por doses constantes e aceleradas de muita adrenalina, orquestradas com precisa habilidade e um interesse tão gigante quanto o protagonista em reinventar a roda, ao mesmo tempo em que segue reverenciando-a.

O motopropulsor da trama é o cientista interpretado pelo sempre competente John Goodman. É dele a teoria da Terra Oca, que afirma que abaixo da superfície do nosso planeta haveriam enormes espaços onde habitariam monstros de proporções enormes, seres desconhecidos que teriam sido os originais donos do planeta, mas que, com o avanço da humanidade, teriam se mantido escondidos, apenas à espera do melhor momento para reaparecerem. Ninguém, obviamente, acredita nele, ao menos até um senador (Richard Jenkins) lhe dar crédito e oferecer as condições necessárias para ir até a ilha que, supostamente, seria a porta de entrada para essa nova e secreta realidade. Assim, com ele rumam até lá um rastreador de pose heroica (Tom Hiddleston), uma fotógrafa-jornalista (Brie Larson) e um pelotão do exército liderado por um general louco por uma nova guerra (Samuel L. Jackson). Estamos, é importante frisar, no início dos anos 1970, logo após o fim da Guerra do Vietnã, quando os norte-americanos se viram obrigados a retornar para casa no modo mais frustrante possível.

A Ilha da Caveira não foi parar no batismo do filme por acaso. Afinal, é nela onde se passa quase que inteiramente o novo enredo. Não demora muito para nela chegarmos e, evitando qualquer tipo de tensão, sermos logo apresentados que verdadeiro protagonista: Kong, o rei. É aqui que as reinvenções de Vogt-Roberts começam a se manifestar. Por exemplo: uma das cenas clássicas das versões anteriores – a do gorila no alto do Empire States cercado por aviões que tentavam lhe atingir – é refeita não no clímax, mas logo na apresentação, com os aventureiros chegando de helicópteros e Kong surgindo inesperadamente no meio deles, dando início a um embate literalmente épico. Outros momentos icônicos, como Kong carregando a mocinha em sua mão, ou enfrentando dinossauros pré-históricos, também são reencenados, porém através de visões modernas e atualizadas, oferecendo novos conceitos e leituras.

Kong: A Ilha da Caveira é tudo o que se poderia esperar de uma produção superlativa como essa, e muito mais. É grandioso, intenso e dinâmico. Há alguns excessos, como o uso demasiado da trilha sonora em clipes cujo único propósito é o avanço da história, ou a pose forçada de Indiana Jones de Hiddleston, que fala pouco e usa a camisa mais apertada possível para deixar seus músculos à mostra – suas participações como o endiabrado Loki do Universo Marvel não foram suficientes para provar que ele é melhor com sua língua afiada do que na força bruta? – ou o pouco espaço dado a Goodman, um dos coadjuvantes mais confiáveis da Hollywood atual. Por outro lado, John C. Reilly é uma presença revigorante ao aparecer lá pelo meio da trama, enquanto que a vencedora do Oscar Brie Larson demonstra esforço para ir além do clichê que lhe é oferecido – e há momentos em que ela até consegue! Samuel, por sua vez, compõe um dos tipos mais interessantes, pois mesmo dentro de sua zona de conforto, com a autoridade que lhe é característica, consegue indicar fraquezas e inseguranças, compondo uma figura trágica e, ao mesmo tempo, hipnotizante.

Parte de um projeto muito maior, Kong: A Ilha da Caveira foi realizado pelos mesmos produtores do recente Godzilla (2014). A ideia, portanto, é revigorar todos esses monstros gigantes, e já foram anunciados os futuros Godzilla: King of Monsters (2019) e, o mais aguardado, Godzilla vs. Kong (2020). Tanto que, após os créditos finais, há uma cena extra que aponta para esse caminho. É, portanto, uma grande brincadeira, porém uma milionária e que deverá render muitos frutos num futuro próximo. Assim sendo, seria ingenuidade imaginar que cada peça desse novo universo não seria construída com todo cuidado e atenção. Incrivelmente superior ao passo anterior dessa jornada, este longa é eficiente no que se propõe, sem desprezar a mitologia do personagem, ao mesmo tempo em que não se exime em assumir riscos para propor novidades inesperadas e soluções ousadas. É quase um trailer em grande estilo de tudo que ainda pode vir, dando indícios fantásticos do que pode ser explorado e deixando claro que, em uma briga desse tamanho, todo o resto é mera distração.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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