Crítica

Um dos filmes mais comentados do início do século XXI teve sua conclusão em Kill Bill: Vol. 2, de Quentin Tarantino. E a melhor notícia a respeito é de que esta sequência é ainda superior à metade inicial! Porém, se o que lhe agradou na primeira parte foi a violência estilizada e a adrenalina descontrolada, é melhor ir com calma. Dessa vez o diretor deixa de lado o virtuosismo exagerado para se concentrar mais nos personagens e em suas motivações, dotando-os de uma profundidade insuspeita até então. E, por mais incrível que isso possa parecer, esta é uma decisão adequada e natural.

Como visto no Vol. 1, a Noiva (mais uma vez vivida pela excelente Uma Thurman), após acordar de um coma de quatro anos, partiu para sua vingança contra Bill e os quatro integrantes do Esquadrão Mortal de Víboras Assassinas. A lista começava com Vernita Green (Vivica A. Fox), que vivia como dona de casa, e seguia com O-Ren (Lucy Liu), rainha do crime organizado em Tóquio. O filme terminava com a eliminação das duas. Este Vol. 2, portanto, dá continuação a esta trilha sangrenta, partindo agora para cima de Budd (Michael Madsen), irmão de Bill que virou leão de chácara de uma boate decadente, Elle (Daryl Hannah), a única que continua na ativa como assassina profissional, e, é claro, o próprio Bill (David Carradine).

O melhor desse segundo tomo é sua capacidade de subverter todas as expectativas, contornando-as de modo sábio, sem frustrá-las, mas surpreendendo com criatividade e inovação. Há momentos cruciais na trama que deixam o espectador simplesmente sem imaginar o que irá acontecer a seguir, levando-o a acreditar que a história chegou a um ponto sem saída. E o que sucede? Ao invés de saciar o dilema proposto de imediato, faz-se um contorno aparentemente absurdo – mas que irá se encaixar no conjunto depois, de modo perfeito – para somente após essa elipse voltar ao clímax anterior, justificando as ações que se sucederam e que elevam a ação a um nível seguinte. Tudo funciona, tornando-se compreensível. O que antes parecia ser um abuso aleatório passa agora a ter uma lógica própria, e é impossível não se deixar levar por ela.

A idéia que deu origem à saga Kill Bill surgiu nos bastidores de Pulp Fiction (1994), durante as conversas que Quentin e Uma tinham entre as filmagens. Tanto que o crédito da autoria dos personagens é de ambos, aparecendo como Q & U. O projeto ficou alguns anos parado, num período que tomou, do princípio até a conclusão, mais de cinco anos. E a dedicação de todos é mais do que recompensada. A Noiva (ou Beatrix Kiddo, como ficamos sabendo) é o papel da vida de Uma, e por esse ela será imortalizada. Além de um roteiro genial, de uma direção inspirada – que mistura referências aparentemente díspares, como western spaghettis e kung fu, com uma habilidade ímpar – e de um elenco no auge de suas capacidades, Kill Bill: Vol. 2 nos premia com passagens memoráveis, como o duelo entre Thurman e Hannah e o embate final da Noiva com o mítico Bill. Vai-se contra todas as probabilidades, e mesmo assim o efeito final é nada menos do que espetacular.

Tarantino poderia se aposentar após Kill Bill. O filme (que, apesar de ser apresentado como sendo dois volumes, é obviamente um único trabalho) é resultado de um esforço de gênio, que desde já fica registrado pelo seu impacto no cinema moderno. É uma legítima obra de arte, para ser não somente apreciada, mas também estudada e aprendida, como inesgotável fonte de referências futuras. E o melhor é que a fonte, aparentemente, não secou. Um terceiro volume, novamente unindo diretor e protagonista, estaria sendo elaborado como próximo trabalho dos dois em conjunto. É de cruzar os dedos!

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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