Crítica

Qualquer desavisado que for assistir a Kill Bill: Vol. 1 sem conhecer a obra prévia do seu realizador pode pensar que se trata de um produto de uma mente louca e doentia. No entanto, basta ser conquistado pelo realizador e adentra no seu universo para ter certeza de que estamos diante de um dos maiores gênios do atual cinema hollywoodiano. Tendo isto posto, é possível afirmar que Kill Bill é um projeto tão doentio e assustadoramente original que só poderia ter sido concebido por alguém como Tarantino, um nerd que passou sua adolescência dentro de uma videolocadora e fez sua fama – além de ter revolucionado o cinema independente norte-americano – jogando no liquidificador todas as referências possíveis acumuladas através dessas experiências. Assim, nesse trabalho, temos desde as produções japonesas feitas em série nos anos 60 e 70 até Tom & Jerry, passando por tudo isso e muito mais.

A história é simples: uma mulher conhecida apenas como A Noiva sofre um ataque assassino no dia do seu casamento. Fato 1: ela estava grávida. Fato 2: o autor do atentado era o seu próprio noivo, Bill. Fato 3; ela, surpreendentemente, sobreviveu, e agora quer vingança.

Kill Bill era uma idéia especial para Tarantino, e por várias razões. A história original foi desenvolvida por ele e por Uma Thurman (que assinam, nos créditos, como Q & U) em conjunto, durante as filmagens de Pulp Fiction - Tempo de Violência (1994), em que ambos trabalharam juntos. Seria, também, uma boa oportunidade dos dois voltarem a se unir num único projeto. Após Jackie Brown (1997), ele ficou durante anos desenvolvendo uma trama que se passava durante a Segunda Guerra Mundial – e que seria retomada somente anos depois, em Bastardos Inglórios (2009). Assim, cansado, resolveu retomar aqueles antigos personagens ao redor d’A Noiva, e continuou a escrever o roteiro. O entusiasmo foi tão grande – e contagiante – que Uma, apenas três meses após ter dado a luz ao seu primogênito, já estava em treinamento constante para viver a protagonista.

Quando o filme finalmente ficou pronto, a montagem final somava mais de 3 horas de duração. Recusando-se a cortar qualquer sequência, Tarantino, aliado aos Estúdios Miramax, responsáveis pela produção, resolveu seguir a tendência iniciada com as sagas O Senhor dos Anéis e Matrix (1999-2003), e simplesmente cortou o filme ao meio! Desse modo, o Volume 1 trata do início dessa trajetória de sangue, perdão, luta e raiva. Bill (David Carradine, num papel escrito para Warren Beatty, que se assustou com a violência do enredo e resolveu cair fora) é o líder do Esquadrão Mortal de Víboras Assassinas (que a sigla, em inglês, é DiVAS!), composto ainda por Vivica A. Fox, Lucy Liu, Daryl Hannah e Michael Madsen. As duas primeiras representarão os conflitos que a Noiva deve enfrentar nesse primeiro filme. Os dois restantes – e mais Bill, é claro – aparecem com mais evidência na continuação.

Kill Bill: Vol. 1 foi acusado, por alguns críticos nos Estados Unidos, de ser “o filme mais violento jamais feito em Hollywood”. Exagero. A obra é cartunesca e exagerada a ponto de ser engraçada, uma grande comédia. Em certo momento, Uma enfrenta a gangue dos 88 Loucos, numa sequência para deixar Neo e os inúmeros Agentes Smith virtuais de Matrix Reloaded (2003) constrangidos. Cada braço decepado, abdômen perfurado ou cabeça arrancada gera rios de sangue, esguichos que inundam as roupas, numa reação tão intensa quanto obviamente falsa. Para Tarantino tudo faz parte de um quadro maior, que ainda não pode ser visualizado a contento, mas que terá seu momento. E o melhor: é contado de forma tão apaixonada e divertida que é quase impossível não se deixar levar. Ainda mais que temos na frente de tudo isso uma atriz vivendo um momento único em sua carreira, numa atuação arrebatadora e impecável. Thurman, que por esse desempenho foi indicada ao Globo de Ouro e ao BAFTA (o Oscar inglês) como Melhor Performance Feminina do ano, alterna momentos de drama, graça e intenso furor de modo primoroso, fazendo-a merecedora de todo elogio possível. Como disse a própria, este é mais do que um mero filme – é uma experiência.

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é crítico de cinema, presidente da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul (gestão 2016-2018), e membro fundador da ABRACCINE - Associação Brasileira de Críticos de Cinema. Já atuou na televisão, jornal, rádio, revista e internet. Participou como autor dos livros Contos da Oficina 34 (2005) e 100 Melhores Filmes Brasileiros (2016). Criador e editor-chefe do portal Papo de Cinema.
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