Crítica

Jennifer Lawrence tinha 24 anos quando filmou Joy: O Nome do Sucesso. Sua personagem, Joy Mangano, tinha 34 anos quando inventou o famoso produto de limpeza Miracle Mop e se tornou uma das primeiras estrelas do canal televisivo de vendas QVC. Esta grande inconsistência na nova parceria da atriz com o diretor e roteirista David O. Russell permanece evidente durante toda a duração do filme, porém os problemas desta narrativa inspiradora, mas pouco inspirada, não param por aí.

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Dedicado à todas as mulheres audaciosas ao redor do mundo (uma em particular), Joy: O Nome do Sucesso tenta conceber o mito ao redor de uma singela mãe de família e seu destino em se tornar uma mulher poderosa, profetizado por sua avó (Diane Ladd, numa breve e tocante performance). Quando ela corta a mão juntando os pedaços de um copo quebrado, tem a ideia de criar um novo e revolucionário produto para facilitar serviços domésticos como este. Como o desnecessário (e quando não é?) subtítulo brasileiro adianta, seu êxito é garantido, mas o que interessa mesmo é o caminho de espinhos e provações que ela deve superar.

Após o sucesso de crítica e láureas por O Lado Bom da Vida (2012) e Trapaça (2013), Russell se agarrou à máxima sobre não mexer em times vencedores e escalou novamente Lawrence, Bradley Cooper e Robert De Niro para os papeis principais em mais uma fábula moralista norte-americana. Aqui ele se junta a outros ótimos atores, como Virginia Madsen, Édgar Ramirez e Isabella Rossellini, reiterando seu excepcional talento em dirigir um grande elenco. O flerte com as telenovelas estadunidenses dos anos 1980, que é intencional desde o prólogo do longa, é divertido e aparece ainda em figurinos e, em especial, nos trejeitos caricaturescos das personagens de Rossellini e Madsen, estas infelizmente pouco aproveitadas no roteiro sempre voltado à sua protagonista.

Lawrence se esforça muito para convencer como a mãe divorciada de duas crianças que tenta dar certo na vida com sua invenção, mas, a cada vez que entra em cena com o tal esfregão milagroso, há uma involuntária provocação de que um arco e flechas estiveram muito mais adequados em suas mãos. Seu protagonismo insistente, independente da adequação dos papeis que lhe são oferecidos, se enquadra na tendência de Hollywood em privilegiar atrizes jovens para personagens de diferentes idades contrapostos a atores mais velhos. Em O Lado Bom da Vida, por exemplo, Lawrence interpretou uma mulher que, no livro que deu origem ao filme, tinha 39 anos – e ela arrebatou o Oscar por isso, com apenas 22 anos. Elisabeth Moss, Greta Gerwig, Kristen Wiig e Jessica Chastain seriam escolhas muito mais adequadas, mas talvez não tão populares.

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Joy: O Nome do Sucesso tem uma premissa certeira e facilmente apreciável, a do oprimido que se revela contra seus opressores numa jornada de superação, mas o que seria o coração dessa história se perde em meio às intervenções estilísticas e narrativas de Russell e suas investidas em diálogos e situações frívolas e irrelevantes – como as interações entre irmã, ex-marido e pai de Joy, ou as resoluções amorosas de seus pais, que nada acrescentam ao todo. O resultado é um filme cansado e cansativo, aparentemente com muito a dizer, mas sem saber como. Ainda assim, acumulando deméritos, tem conquistado copiosos defensores e indicações em prêmios como o Oscar para Jennifer Lawrence, que parece justificado apenas para garantir a participação da moça na cerimônia e aumentar a audiência da mesma – provável motivo que continua levando David O. Russell a escalá-la como sua protagonista.

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é crítico de cinema, membro da ACCIRS - Associação de Críticos de Cinema do Rio Grande do Sul. Graduado em Publicidade e Propaganda, coordena a Unidade de Cinema e Vídeo de Caxias do Sul, programa a Sala de Cinema Ulysses Geremia e integra a Comissão de Cinema e Vídeo do Financiarte.
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